quinta-feira, fevereiro 26

Conheci Cristina na 24ª página


Íamos os dois de mãos dadas.

Eu e a Cristina.

Um sonho louco. Louquíssimo. Extremissimamente louco. Enfim - um sonho. Não havia nuvem que nos segurasse, nem paraíso que nos satisfizesse. Estávamos loucos, pronto. Para quê mais frases? A manhã era terna e sabia bem passear assim.

Conheci Cristina na 24ª página. Os olhos que lhe inventei roçaram os meus e o corpo colou-se perfeitamente. Senti que a podia ajudar e as nossas mãos, em se dando, formavam um cometa. Os nossos lábios traziam o Universo quando se tocavam.

Ela não tinha aonde se agarrar e eu, apercebendo-me disso, tentei trazê-la à realidade com muito amor, devagarinho. Soltaram-se-lhe os sentimentos da garganta e contou-me as partes da sua vida que mais a tinham marcado.

Foi uma experiência curiosa, até porque tinha sido eu a imaginar as situações. Conclui então que a análise não estava má, embora enfermasse de uma certa falta de sequência. Mas era no pormenor do acontecimento que eu recolhia a imagem que depois reproduzia por escrito.

E havia dias de vento forte!

E havia dias de um sol aconchegador!

E os jornais (com raras excepções) começavam a encher de mentiras os leitores desprevenidos.

E as ameaças aumentavam constantemente!

E as bombas eram diárias!

E morriam pessoas que eu e a Cristina conhecíamos bem!

Comecei a interessar-me por Cristina. Ela era muita gente. E eu gostava muito da gente. Comecei a amá-la. Profundamente. Apaixonadamente. Com sinceridade. Tinha direito a isso. Era tão novo como a minha idade.
(...)


Alberto Augusto Miranda in Outubro de um Século, Edição Autor, p. 65 e 66, 1981
Imagem: Cometa Tempel 1; NASA/JPL-Caltech/UMD

5 Comments:

PAS[Ç]SOS said...

E quantas vezes a imaginação é a água para a sede do desejo? E quantas vezes a imaginação nos realiza o sonho que a realidade nos proíbe? Que bom ter a liberdade e a capacidade para imaginar.

Dalaila said...

eu também a conheci! e também viajo com ela, não há melhor que a imaginação

Anónimo said...

A Marta vai-me perdoar a observação.
Pelo pouco que tenho visto aqui, pois o seu blog ainda é recente, é para mim uma mulher/menina/menina/mulher de indescutível bom gosto.
Este texto, por exemplo, é o que quiser menos vulgar.
Mas onde vai buscar estes 2 "estranhos" livros da sua vida?
Para mim é um mistério, confesso-lhe eu. Este autor, por exemplo, não conheço.
Satre conhecia-lhe a filosofia; outras obras; desconhecia-lhe aquele livro.
Mas vou procura-lo.
Obrigado e não deixe esta sua VIDA.

Marta said...

Pas[ç]sos e Dalaila


como alguém disse
«a imaginação é mais importante que o conhecimento» :)

e...eu concordo!

Anónimo said...

Tu também és muita gente. Marta.
E nós também te GOSTAMOS por isso.