terça-feira, fevereiro 3

Ouvir rádio à noite, em casa

Ontem, à noite, deixei, novamente, de ser telespectadora. Acontece com frequência. Por diversos motivos. O mais vulgar é deixar de ser telespectadora para ser leitora. Mas ontem aconteceu uma raridade. Deixei de ser telespectadora para ser ouvinte. De rádio.
Costumo ouvir rádio no carro. Não é costume ouvir rádio em casa e muito menos à noite.
Desliguei a televisão e sentei-me, à média luz, para ouvir o programa da Antena 1. Logo após o noticiário das 22. Estava ali, acomodada para ouvir rádio e, antes que o programa começasse, dei comigo a pensar que um dia [durante imensos dias] foi assim. As pessoas, as famílias, a sociedade sentava-se para ouvir rádio. Sentavam-se à volta da rádio - da telefonia - que lhes trazia o mundo ou metade do mundo - não importa para o caso - para dentro de casa.
O mundo em vozes e sons que apelam à imaginação. Uma espécie de imagética condicionada somente à sonoridade. E já estava eu em divagações [como eu gostava de o [re]conhecer, Dr. Divago] que não me levam a lado nenhum, quando música e palavras recordam João Aguardela.
Fiquei a saber coisas que desconhecia, músicas que desconhecia.[Aquela dos discos infiltrados na FNAC, achei-a brilhante... e fez-me sorrir]. Para mim, Aguardela, era [é] essencialmente Sitiados. [Era nesta altura que eu o achava o rapaz de cabelos compridos mais lindo do mundo] E, ultimamente, A Naifa. Pelo meio, coisas vagas que ontem tive a oportunidade de saber, de aprofundar. Pela voz de amigos, de pessoas que trabalharam com ele e lhe salientaram a vitalidade, a energia,a inteligência, a sensibilidade. Se me doí a mim, o que fará a quem o conheceu? Gostei. Por muitos motivos. E emocionei-me por dois.
Ontem à noite fui ouvinte. E ouvi música que queria ouvir, apesar de não a ter escolhido.
«A música é a forma de arte mais racional e simultaneamente mais irracional existindo no pensamento, na sensibilidade e em formas culturais diferenciadas» escreveu Max Weber.
Ontem à noite, eu ouvi certo mundo pela voz do Ricardo Alexandre. E ouvi músicas que foram o universo, muito particular, de um músico, de uma geração. [Da minha geração.] E a sua música continuará a ser a representação de um padrão musical-cultural. O caminho para regressar, mas também para encontrar...

2 Comments:

Claudia Sousa Dias said...

porque é qe dói tanto a morte de quem admiramos?

como uma jóia que se deita ao mar ou uma taça Ming que alguém despedaça só por maldade ou vandalismo...

há dias vi na rádio cidade hoje um videop de um concerto dos Nirvana.

e ali fiquei hipnotizada pela beleza e pela solidão interna de Kurt Cobain, como é possível um homem tão belo adorado comum deus, um voz de arrepiar...

que desperdício, que desperdício, que desperício...

não é possível o conformismo diante da Ceifeira.


beijos


csd

Dalaila said...

Eu também ouvi, a caminho de casa, depois de mais uma fromação no POrto, pregada ao rádio que oscilava dado que me roubaram a antena do carro!!! E amei o programa.