terça-feira, fevereiro 10

Crónica de uma marta anunciada

São dez da manha de sábado e antes de começar a trabalhar fui saber de ti, por ti.
Costumo fazê-lo mais ao final do dia. E devia ter mantido o ritual. Mas não.
Fui ler-te e já não regressei a mesma. É lá possível!
Levantou-se tamanha tempestade cá dentro, que tive de me levantar com ela para ir tomar outro café. Não foi só o que escreveste, é o que está dentro do que escreveste. O que está à volta e, também, o que está para trás.
Estou certa que compreendes.
Já na esplanada mais próxima, quis domar-me. Olhei à volta, tentando imaginar os teus cubanos em cada pessoa ao meu redor nesta manhã de Julho. Imaginar ameniza qualquer tempestade.
Só retive o sorriso feio de um homem bonito e o encantamento de uma criança com uma minúscula aranha na mesa ao meu lado. E pensei no séquito de animais que te rodeiam. A cobra do outro dia impressionou-me. E os mosquitos fidelizados, também. Depois, enquanto bebia o café, pensei ainda no futuro do que escreveste. E sorri.
Procurei no meu saco o disco que esta manhã trouxe comigo em tua homenagem. Sim.
Procurei, entre os meus discos em desordem alfabética, o Buena Vista Social Clube e vim a ouvi-lo na curta viagem de carro. «Chan, Chan, é a primeira.
«El cariño que te tengo/ Yo no lo puedo negar…»
Como em três músicas cheguei ao destino, arranquei o disco à boca negra do leitor e voltei a enfiá-lo no saco para o continuar a ouvir no escritório. Mas deu-me para te ler, em vez de trabalhar e, agora, estou aqui, literalmente a ver passar os eléctricos, sem vontade de fazer o que tenho de fazer. Ontem o Miguel disse-me que ias a Havana. E acho que foi isso que me fez procurar o disco e me deixou com vontade de rever o documentário homónimo.
Puxei do cigarro e desfolhei a Visão – que também estava dentro do meu saco; do meu saco só não saem coelhos, de resto encontra-se lá de tudo – a ver se me abstraía de ti, que é como quem diz, das tuas palavras e de Cuba. Agora, tu e Cuba são sinónimos para mim. Pelo menos, até ao fim do mês. Passei os olhos pelo Radar e retive-me no cartoon. Já te disse que gosto muito de cartoons, não já? Continuei desfolhando. O vento, ligeiro, também ajudava. Fui lendo títulos e caixas, assim como quem se quer distrair de pensar que Cuba ainda não foi desta. E se tivesse sido desta, teria sido contigo. Lembras-te? A tua convicção foi tão forte como o meu pressentimento. E ambas estávamos certas. Mas saber-te aí, a cumprir o sonho, faz-me feliz. E tu sabes porquê. Às vezes não há forma de fugir das tempestades que se fazem cá dentro e nos levam à esplanada mais próxima. Como se tratasse de um reboliço de palavras impeditivas.Tinha mesmo de te escrever. Para o dia continuar, tinha de te escrever.
Na página 45 da Visão, meia, é ocupada com publicidade.«Voo directo Cuba, 998 euros, avião + hotel + taxas». Na página ao lado, Miguel Portas, diz que «o comunismo é uma grande religião laica». É título. E eu digo-te que paguei o café e vim a correr escrever-te. Tinha a carta cá dentro. Talvez fosse isso a incomodar-me. É que tenho muitas cartas cá dentro, como se fosse um marco atulhado, esquecido. Que as cartas que vou escrevendo e não chegam ao destino são infinitas.Também já te disse que gosto de escrever cartas, não disse? Mas, agora, são poucas as que escrevo realmente. Hoje, quando voltei a ler sobre o teu «filme chamado Cuba», sobre o que sentes quando vais ao cinema, sobre os bastidores da história que estás a viver, a aprender e a escrever, nessa tentativa de decalcar a realidade ou não, comovi-me. Mas tu comoves-me com frequência. A questão não é essa.Foram todos os outros filmes que se acenderam com as tuas palavras.
A vida a fazer de conta, a correr na tela, depois de acontecer na vida.
Com as luzes todas apagadas. Para se fazer silêncio, deste lado.
Como se o mundo inteiro fosse uma sala de cinema. O disco, agora no meu portátil, vai tocando La Bayamesa. Já no fim. E eu, com as músicas e os filmes que me disseram, que me dizem, a cruzarem-se num aparente non sense. A cores e a preto e branco, músicas de uns, diálogos de outros. Pessoas reais, que amo, e outras inventadas, em que acredito, todas a dialogarem.
A dizerem coisas novas e antigas. Jogos de sombra e de luz.

«A música faz-nos pensar em bons momentos que vivemos e fomos felizes ou, quem sabe, em algo que podemos viver ainda».
Play it…
Ouvir-te ou ler-te. O encanto é o mesmo. Imenso.

6 Comments:

Claudia Sousa Dias said...

e qual é o blog? qual é, qual é?

BEIJO


CSD

Anónimo said...

E a ti, também, o encanto é o mesmo. Mas posso, ainda, tratar-te por Maria? :) Foi assim que comecei a ler-te. Sabes, ainda me lembro do texto da carta de condução, divinal, cheio de humor.
Que bom estares de regresso. Não volte a ir embora sem avisar. A bloggosfera é uma casa.
Um abraço, Heli

Eduardo Trindade said...

Com o perdão do trocadilho "roubado": definitivamente, há vida em Marta... Tuas palavras são gostosas de se ler...
Abraços!

adevidacomedia said...

E pronto...se tivesse aí dava-te um beijo. Com ou sem buena vista.

PAS[Ç]SOS said...

Que intensidade, que movimento, que maravilhoso turbilhão de ideias, de sentimentos, de emoções, que fertilidade de palavras, de linhas...
Que carta maravilhosa!

Anónimo said...

Este antepenultimo fim é do grande filme a preto e branco :) um dos fimes da minha vida!

Play it, Sam!

bjo