quinta-feira, fevereiro 26

A presença mais pura

Nada do mundo mais próximo
mas aqueles a quem negamos a palavra
o amor, certas enfermidades, a presença mais pura
ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância da língua comum deixaste
o teu coração?»

A altura desesperada do azul
no teu retrato de adolescente há centenas de anos
a extinção dos lírios no jardim municipal
o mar desta baía em ruínas ou se quiseres
os sacos do supermercado que se expandem nas gavetas
as conversas ainda surpreendentemente escolares
soletradas em família
a fadiga da corrida domingueira pela mata
as senhas da lavandaria com um "não esquecer" fixado
o terror que temos
de certos encontros de acaso
porque deixamos de saber dos outros
coisas tão elementares
o próprio nome
Ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância deixasteo coração?»

José Tolentino Mendonça

2 Comments:

PAS[Ç]SOS said...

... o envelhecimento que nos provoca a rotina da vida
... a rotina em que caímos quando nos esquecemos de viver
... o cansaço inconsciente que nos distancia do coração

Claudia Sousa Dias said...

"A altura desesperada do azul
no teu retrato de adolescente há centenas de anos..."

lembro-me muito bem desse retrato, ó mulher vestida de sol!!!


beijinho


csd