segunda-feira, fevereiro 23

Eu não tenho gato, mas se o tivesse...

Quem há-de abrir a porta ao gato

quando eu morrer?

Sempre que pode
foge prá rua
cheira o passeio

e volta pra trás,

mas ao defrontar-se com a porta fechada

(pobre do gato!)
mia com raiva
desesperada.

Deixo-o sofrer

que o sofrimento tem sua paga, e ele bem sabe.

Quando abro a porta corre para mim
como acorre a mulher aos braços do amante.
Pego ao colo e acarici-o

num gesto lento,

vagarosamente,

do alto da cabeça até ao fim da cauda.

Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,

olhos semi-cerrados, em êxtase,

ronronando.
Repito a festa,vagarosamente,

do alto da cabeça até ao fim da cauda.

Ele aperta as maxilas,
cerra os olhos,

abre as narinas, e rosna,
rosna deliquescente,abraça-me e adormece.

Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?
António Gedeão
Quadro: Aldemir Martins
[Poema dedicado à minha irmã]

4 Comments:

K said...

Existem irmãs com sorte!!! Além do poema, têm um gato giro e gordo...

Claudia Sousa Dias said...

hum...se soubesses a pena que tenho de não ter gato...


csd

Dalaila said...

Eu tenho uma gata gorda, simpática, e espero que haja sempre quem lhe abra a porta.

Ola linda

Dina said...

olá!! este poema é-me tão familiar na tua voz Marta !!! o TUM que o diga!!=) beijinhos , Dina
nice to see you !!=)