terça-feira, fevereiro 17

Crónica de uma marta anunciada

Não escrevo há 21 dias. Não é só preguiça. Motivos há imensos. Sobra-me o espanto. Histórias.

O tecto do meu quarto está lotado. De repente, Viseu, Lisboa, Luanda.

O mundo ficou sem fronteiras. Para uma galaico-duriense, agarrada à meseta de afectos.

E não pensem que não sei o que são terramotos. E sismos. Sei bem. Não sei, se sei de sobra. Mas sei bem. E sei o que é pegar na régua e no esquadro. Outra vez. São 200 anos. É muita vida.

E às vezes sinto-me cansada. Eu de suplemento na mão, a desfolhá-lo, em vez de o pôr no lixo, como sempre.Espaços & casas ou vice-versa. Ou nada disto.Casas em Lisboa em páginas de jornal. Eu de marcador a fazer círculos à volta dos anúncios. Eu a fazer e a não estar a acreditar no que fazia. Eu a perceber que às vezes não acreditamos no que fazemos mas fazemos. E fica feito. Eu a fazer analogias, a desviar-me do cerne da questão. E os anúncios, tantos. E a faltarem-me as ruas, as zonas. Sei lá onde fica isto.

Eu, entre a luz e o granito. E o granito como retrato e a luz como estímulo. Eu a telefonar. A perguntar por preços, voz segura. Coração trémulo. Mas a perguntar. Como se nunca tivesse dito não a Lisboa. Convicta. Eu a pesquisar na net. À procura de Luanda. No Belas Shopping.

Eu tentada. Já no avião. Nas nuvens. Com vontade de regressar e ainda não tinha saído do sofá.

Eu a fazer contas e a apagar o sorriso dos meus sobrinhos do quadriculado do caderno. A sentir os xis-corações. Os seus braços a crescerem à volta do meu pescoço. Deixa-te de ser lamechas. Vá. Deixa-te de tretas.Vai ser muito bom. E mesmo que não fosse. Não podes ficar aí de braços cruzados, a ruminar. Logo agora que eu começava a gostar de certas rotinas e a gostar de quem gosta de certas rotinas. Logo agora que a Senhora Zulmira sabia os dias em que eu podia beber o café com a nata. Boa hidro, menina. E abria o sorriso. Deixe as calorias na água.

Logo agora que eu sabia que saindo de casa às 8.25 em ponto, não tinha de acelerar a passar o túnel, por não ter antena, para ouvir os Sinais, na TSF. Logo agora que...Não vale a pena ruminar. Mas há imagens que insistem. Acontecem em minutos e repetem-se uma vida.

O pisa-papéis, pesado, precioso, na cabeça do Senhor Manuel. O pisa-papéis inteiro na cabeça do pisa-mansinho que queria ir a Nova York mas não sabia falar inglês. Como foste capaz?

A mercadoria do contentor por conferir. A recusa da assinatura. Ò dra. não assina? Isso vai dar problemas. E deu.A gajita de 26 anos a chamar-te demasiado educada. Como se fosse um insulto.A dizer-te que era preciso ter tomates. Como se fosse um requisito.E tu, polida, a dizer que tomates, tomates, tem quem recusa uma pipa de massa à porta de casa. Que - perdão - tomates, tomates, tem o Sr. Manuel, que levou com o pisa-papeis do Dubai nas trombas e nem chiou. Cambaleou. A sangrar. Pingas de sangue no mármore. Atrás de si. E depois, no Jaguar.Surreal. Não havia muito mais por onde escolher.A choradeira dentro do Focus. Estrada fora. Não imagino como vai ser.Não imagino. E até imaginava.Mais uma história banal.A tentação, à flor dos lábios. Voz alta, dentro do carro.Porquê a mim?Poupa-me. Por favor.A ti, porque sim, porque se não fosse a ti, era a outra qualquer.E depois, de repente, já perto de Lisboa ou Luanda, aconteceu.O coração, feito casa de muito movimento. Alfândega de novas mercadorias.Voltado para o Douro, feito cais de afectos. O granito como retrato, a luz como estímulo. Como se houvesse milagre.

4 Comments:

Claudia Sousa Dias said...

eu lembro-me disto no "tecto".

foi mais ou menos há um ano, não?


csd

PAS[Ç]SOS said...

uma vez mais fantástico! fascina-me o ritmo da escrita, a catadupa de emoções, de sentimentos, de imagens, de realismos... para lê-la é preciso ter fôlego de atleta de meio-fundo, ainda que a sua escrita possua a velocidade dum corredor de 100 metros!

Anónimo said...

vai daí para fora! já pra casa, escrever!
escrever mais, miúda, escrever mais.

:)

Marta said...

Sim, linda Claudia, talvez :)

Pois é, estimado Pas[ç]sos, nunca tinha penssado nisso! Eu que odeio correr, ponho-me a andar de pressa com as palavras :)

Senhor (a) anónimo, não sei se isso de me mandar para casa...
eu até ía, se ela já estivesse paga :)

abraços