sexta-feira, fevereiro 20

O nome das maças


Quando acabei de o ler, já tinha entrado na máquina do tempo que me transportou para longe e me demorou por lá. Memórias olfactivas que despertam afectos. E fazem sorrir. Ainda que ninguém possa adivinhar exactamente o quanto o passado nos contrói, sei intimamente e com absurda clareza o quanto foi decisivo, para ser assim. Assim, hoje. Assim, eu. É uma historieta que nunca contei. Risível. Disparatada.Vivi parte da minha infância a pensar que as maças bravo de esmolfe, se chamavam bravo de esmofo! E achava estranho que maças de aroma tão agradável tivessem aquele nome que me remetia para o repelente odor a mofo! E mais. Acreditei durante alguns anos que a avó Clotilde não sabia dizer mofo e dizia esmofo! E, afinal, a avó Clotilde sabia tudo. Até o nome das maçãs. Não havia meio de atentar na fonética da palavra. Nunca a tinha visto escrita. Bravo de esmolfe era, para mim, uma só palavra, uma palavra apenas para se dizer. Era uma palavra da avó Clotilde. Era o ingrediente divino da compota de maçã mais especial do mundo. Era sinónimo de cesto pequenino, ovalado, que a avó me dava para ir com ela à Lamela. Quando a avó Clotilde morreu eu tinha nove, dez anos. Mas ainda hoje guardo na memória, o seu sorriso terno e triste. E as suas mãos morenas no meu rosto.
Cheiram a maças. A estas maças. E a palavras que nunca saberei dizer.

2 Comments:

PAS[Ç]SOS said...

... retratamento e memórias deliciosos!

Anónimo said...

Comovente e ternurento.