quarta-feira, fevereiro 11

Há-de flutuar uma cidade

há-de flutuar uma cidade no crepúscolo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)


um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade

Al Berto

3 Comments:

Ana said...

Tanta melancolia e tão bem posta em palavras.
É o dom dos poetas.

Beijinho

Claudia Sousa Dias said...

eu também, a maior parte do tempo.

subscrevo estas plavras.

Dina said...

Marta!!! querida marta!!
qd descobri este teu blog fui logo pesquisar poemas!! e deixo um rebuçado que me adoça a boca!!!e os olhos !!

os olhos



se um gesto me definisse seria o de te afastar o cabelo para te ver melhor o rosto que me

[enche de bravura

e só te vejo pelos meus olhos por serem os que te vêem mais bela

por isso os escolho sempre

tenho os olhos feitos à medida da tua cara

e só tenho olhos para ti

quando não estás sou invisível e quase invisual

a visão não me serve de nada

vejo mas sem cor e é pior que a preto e branco

é desfocado

é esbatido

e sem chama

e sem cheiro

contigo cheira bem

sabe bem

ouve bem o que digo porque é sincero porque se não fosse todo eu era falso

cada falso que há aí merecia cadeia ou morte

mas com os teus braços finos a fazer as vezes da corda que me serpenteia o pescoço

[para me matar de felicidade

e só te quero a ti

e só te vejo a ti como a última noite do Verão mais quente

com o céu mais estrelado

com a lua mais cúmplice

com os gestos mais carinhosos

e tiro-te o cabelo da frente com a ajuda da minha mão direita que só existe para isso

e vou para te beijar mas não o faço

hesito porque os meus olhos pediram-me que os deixasse olhar para ti mais uma vez

e eu deixo para eles não chorarem muito"joao negreiros

in “a verdade dói e pode estar errada