domingo, fevereiro 22

Mortal e Rosa


«Quando me arranco ao bosque dos sonhos, à selva escura do sono, e me reanimo a mim mesmo, vou-me completando lentamente. Porque me deixei de interessar pelos meus sonhos. Quero que o Freud vá à merda.

Tudo o que somos, de facto, tem este reverso de sonho, este cimento, esta fossa escura, e alguém se interrogava, irónico, sobre os sonhos de Kant, de Descartes, de Hegel. Que tipo de sonhos teriam estes monstros da razão? Toda a repressão mental mental dos seus sistemas deverá ter tido, sem dúvida, um reverso caótico, aflito e angustiado. Como negar a metade da vida na sombra, se é lá que estão os sonhos? Há um período da existência em que nos decidimos a ser só os nossos sonhos e o surrealismo é uma forma de adolescência ao querer alimentar-se de sonhos. Há uma maturidade, um classicismo - em qualquer idade da vida - em que optamos pela nossa própria razão, pelo nosso próprio rigor, pela nossa própria estatura. Vai dar ao mesmo. Tão pueril é viver de sonhos como de silogismos. Claro que cada um vive daquilo que pode e é demorado aprender a viver de realidades, de coisas, de objectos, tal como vivem os seres naturais. O homem é um ser da longura, como dizia o outro. Sim, o homem é um ser de utopias, de distâncias, de "projectos líricos". O homem tem de aprender a ser uma criatura de proximidade, pastor do imediato.

Os meus sonhos dão-me apenas uma versão confusa do que para mim é claro. Quando sonho sou um exageta confuso de mim próprio, o amanuense incompreensível e molengão que quer anotar tudo e tudo baralha. O sonho comenta a minha vida de um modo ocioso e obscuro, sem segredos mas com sombras.

Concordo, neste aspecto, com monsieur Sartre, que nega aos sonhos qualquer significado e que lhes atribui a impossibilidade de representarem uma única imagem coerente, porque ao representar uma imagem coerente "já estou acordado".» (...)

Francisco Umbral, traduzido por Carlos Vaz Marques, in Mortal e Rosa, Campo das Letras, p. 9, Outubro de 2003
Imagem: Desculpem-me, mas desconheço o autor

1 Comment:

mfc said...

Não sei que diga, Maria, mas puseste-me a pensar.
Há clichets que damos por aceites...