sábado, janeiro 23

Sugestões de leitura em 1885


«Sabes uma coisa? Quando fui o ano passado, apresentado a Junqueiro, ele disse-me: "Leia Michelet; Michelet faz bem ao estômago e ao cérebro; faz bem ao espírito e à saúde" (...)

Queres poesia? Tens aqui o Junqueiro, o João de Deus, o Gonçalves Crespo, etc, etc. Todos estes são poetas modernos: o João de Deus, dando uma nova feição à poesia lírica de Camões é delicioso; Gonçalves Crespo, seguindo as pisadas dos parnasianos moderníssimos da França, como Théodore de Banville, François Coppée, Sully-Proudhome, etc, é tão bom como eles, e é um dos melhores modelos da poesia burilada com a paciência de um chinês; Guerra Junqueiro, enfim, o primeiro que deitou por terra as pieguices sentimentais dos românticos, em A Morte de D. João e na Musa em Férias, é, por vezes, um gigante como Vítor Hugo.

Já os lestes decerto, e lerias por ventura o maior poeta brasileiro (olá se é) Castro Alves, o autor das Espumas Flutuantes? Creio bem que sim. Põe de parte o Casimiro de Abreu, que embora seja um bom poeta não nos dá consolação nem vigor; dá-nos apenas desalentos e lágrimas.

Queres romances? Não leias os Ponsons, os Dumas (Pai), os Montepins; lê o Zola, o Daudet, os Goncourt (Edmundo e Júlio), e entre nós o Eça de Queirós que não sei se sabes é o escritor mais considerado de Portugal e Brasil.

Alexandre Dumas (Pai) não tem romances que instruam, que nos mostrem a sociedade tal qual ela é; o que não sucede com os outros apontados que são hoje os grandes homens da literatura moderna, os grandes escalpelizadores da alma humana».


António Nobre, in carta a Alberto Baltar, 9 de Fevereiro de 1885

in António Nobre, 1867 - 1900 FOTOBIOGRAFIA, Mário Cláudio, Dom Quixote, 2001

1 Comment:

PAS[Ç]SOS said...

... e assim se fazia, com sublimidade, crítica literária há dois séculos atrás.