sexta-feira, janeiro 29

Sabeis porque choram os olhos?


«Todos os sentidos do homem têm um só ofício; só os olhos têm dois.
O Ouvido ouve, o Gosto gosta, o Olfacto, cheira, o Tacto apalpa, só os olhos têm dois ofícios:
Ver e Chorar.
Estes serão os dois pólos do nosso discurso.
Ninguém haverá (se tem entendimento) que não deseje saber por que ajuntou a Natureza no mesmo instrumento as lágrimas e a vista; e por que uniu na mesma potência o ofício de chorar, e o de ver? O ver é a acção mais alegre; o chorar a mais triste. Sem ver, como dizia Tobias, não há gosto, porque o sabor de todos os gostos é o ver; pelo contrário, o chorar é o estilado da dor, o sangue da alma, a tinta do coração, o fel da vida, o líquido do sentimento.
Porque ajuntou logo a natureza nos mesmos olhos dois efeitos tão contrários, ver e chorar? A razão e a experiência é esta. Ajuntou a Natureza a vista e as lágrimas, porque as lágrimas são consequência da vista; ajuntou a Providência o chorar com o ver, porque o ver é a causa do chorar. Sabeis porque choram os olhos? Porque vêem.



Basta-me escutar. Escutar não tanto a superfície das conversas, mas a dor que dentro delas nada silenciosamente. Os pianistas confessam-se nas teclas, no modo de atacar as notas. Sei quem são Adriano Jordão e Theodor Paraschivescu, conheço-lhes a infância e os sonhos, porque os ouvi tocar. (...) Ah, a terrível bondade daqueles a quem nenhum sentido falta. Esmagam-me de compaixão. Falam-me alto, espaçadamente, como se eu também fosse surda. Agarram-me no braço, continuamente. Queria conhecer alguém que tivesse a sensibilidade de me tocar apenas com o olhar. (...)».

Inês Pedrosa in A Eternidade e o Desejo, pag. 136, 137, Dom Quixote,2007

[ Sábado, dia 30 de Janeiro, às 17 horas, como de costume, na Livraria Almedina do Arrábida Shopping. A convidada de Miguel Carvalho é Inês Pedrosa. Mais um encontro na Comunidade de Leitores. Desta vez, A Eternidade e o Desejo é o livro de que se fala.]



12 Comments:

leonel said...

Eu nunca tinha parado para pensar sobre isso. De fato, eis aí, uma importante consideração. Os olhos foram os preteridos para ver e chorar. Uma antítese, que poderia ser até literária, já que um, como tu mesma disseste, é alegria, e, o outro dor. Mas, esta antítese que naturalmente nos veio assim, sem com que tenhamos pedido, é muito mais do que literária. É a personificação da antítese natural, da qual a vida nos oferece.

Belo texto!

Abraço!

Carlos Azevedo said...

E eu ainda estou na dúvida se vou à sessão ou à apresentação do 'Caderno de Memórias Coloniais', da Isabela Figueiredo (http://novomundoperfeito.blogspot.com/2010/01/o-caderno-vai-coimbra-amanha-e-arrasta.html). :)
Abraço.

hg said...

Os olhos choram por causa do alecrim!

Anónimo said...

O nariz cheira e tb deita ranho.

Funes, o memorioso said...
Este comentário foi removido pelo autor.
Funes, o memorioso said...

Não acredito!
Publica-se aqui pela segunda vez um texto notável e, em vez de se citar o seu autor - o Padre António Vieira - cita-se Inês Pedrosa. Porquê?
Por que não fez como da primeira vez que publicou aqui este texto e não colocou o Padre António Vieira nas etiquetas?

SILÊNCIO CULPADO said...

Marta

Sem dúvida uma belissíma passagem da obra de Inês Pedrosa.
Os olhos são, sem dúvida, o espelho da alma e a alma tem sonhos e profundezas...


Abraço

Funes, o memorioso said...

Mas, minha cara Silêncio Culpado, a passagem é, de facto, belíssima, mas não é da obra de Inês Pedrosa. É da obra do Padre António Vieira.

Sérgio Aires said...

o melhor da Inês Pedrosa.

Funes, o memorioso said...

Está a dizer que o melhor de Inês Pedrosa é do Padre António Vieira, Sérgio Aires? Não é lá grande elogio à senhora.

Marta said...

Olá Leonel,

o texto, que coloquei a bold, é da autoria de Pe. António Vieira. Tal como outros que intercalam a prosa de Inês Pedrosa no livro mencionado. A autora fez uma pequisa sobre Vieira e seleccionou diversos textos que fazem parte deste livro de que, aliás, gosto bastante. Como já tive a oportunidade de dizer, aqui.
abraço

Carlos, :)
ainda bem que optaste por ir...Gostei mesmo muito de conhecer quem anda a perder sacos Fnac [ou seria da Almedina?] por aí... :) para a próxima tomamos um café! [..."Zaclis" funcionou como palavra mágica ;)]

hg,
mas tem de ser aos molhos :)

caríssimo Prof. Funes,

...porque postei a correr...arre!
[já está como o primeiro post que fiz!]
...
agora desampare-me a loja, pf.! tanto blog e tem vir azucrinar-me a mim... sossegadinha, aqui, no meu planeta.


Lídia, um abraço!

Sérgio :)que surpresa! bem-vindo!

Carlos Azevedo said...

Igualmente, Marta.