sexta-feira, janeiro 15

Se eu pudesse trincar a terra toda

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
E se a terra fosse uma coisa para trincar
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz,
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade e na infelicidade
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...

Alberto Caeiro in Poesia,pag.55, Assírio & Alvim

imagem: José P. Dionisio

3 Comments:

João Menéres said...

Óptima imagem de JOSÉ P. DIONÍSIO a traduzir muito bem este poema do Alberto Caeiro.

Felicito-te pela sábia conjugação.

Um beijo.

Sergio Storino said...

Marta,
Lindo poema do Alberto Caeiro!
"É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural..."
Sábias palavras...

PAS[Ç]SOS said...

Se me é permitida a ousadia de ir mais longe do que o POETA, ainda que corroborando o seu pensamento, exorto a conveniência de viver com intensidade para que o acreditar nos proporcione o prazer de sorrir o percurso, quando o fim se nos depare.