terça-feira, janeiro 19

Cinema sem Paraíso


Na cidade “onde nasceu um dia a sétima arte em Portugal”, pela mão de Aurélio Paz dos Reis, é cada vez mais estranho falar-se de Cinema. E já que falamos nisso, importa referir que estamos como é lógico a falar do Porto, a urbe que outrora possuiu, à laia de exemplo, o cineclube mais dinâmico do país e cujo número de associados fidelizados nunca augoraria o estatuto presente de pré-moribundo a que chegou. Urge fazer algo, pois na verdade há ainda pessoas que o defendem com estoicismo e para cúmulo são visadas no seu bom-nome em plena praça pública. A propósito disso, convém relembrar que ainda recentemente alguns, em nome de uma associação criada à pressa, e em nome de supostas boas intenções, não conseguiram disfarçar a cobiça pelo património da instituição e se propuseram reabilitá-lo, angariando para o efeito as credenciais de gente insuspeita nesta matéria! Estaremos enganados ou atentos? Isso será outra película...

Das salas tradicionais sobejam apenas alguns néons simbólicos. A era do chulé de pipoca dos centros comerciais desritualizou a ida ao cinema, aquele dos filmes que víamos até ao intervalo e discutíamos expectantes a segunda parte no bar, provando um café de saco e conferindo uma assertiva tricadela num toblerone. Sim, esse mesmo, o cinema do Águia D’Ouro (são memoráveis as filas para o blockbuster indiano da época: “ O Passado Inesquecível”), do Batalha, do Olímpia, onde os tirones janotas de Domingo ansiavam pela matiné do engate, nem mais nem menos do que uma garina para trocar uns cuspes e até tinham a ousadia de nem saber se o filme era a cores! E depois veio a “classe conforto”, tal e qual o alfa-pendular, dos cinemas de “segunda geração”, alguns já mais deslocalizados da Baixa: Charlot, Foco, Pedro Cem, Passos Manuel, Lumiére e Nun’ Álvares, sendo que este é o único da lista em que já se vê luz no fundo do projector. Será exemplo único ou múltiplo? Talvez valha a pena acreditar que lá virá o tempo em que alguns dos espaços sobreviventes e não reconvertidos façam a travessia até à altura em que volte a ser moda, uma espécie de ritual vintage, ir à Baixa do Porto ver cinema. Até lá, contentemo-nos com o Fantasporto.

João Fernando Arezes

[post roubado quase na íntegra AQUI, no blog do Paulo Pimenta, onde há mais excelentes fotografias de sua autoria]

5 Comments:

Dalaila said...

Podem sempre vir aprender com o cineclube de Guimarães :)

Voar sem Hasas said...

Marta,

é caso para dizer...
"cansei de injustiças, vou decretar o respeito"

somos afinal o verdadeiro povo do fado, choramos de saudade....
porque gostamos de chorar e só por isso....

pertinente como sempre... e ainda bem MARTA
beijos

Anónimo said...

Subscrevo esse texto do JFA na totalidade e com um certa saudade dessas salas de cinema!
Leigo

Carlos Azevedo said...

Felizmente, o Nun'Álvares abriu novamente as portas; espero que aguente a concorrência das grandes salas de cinema. Era bom que mais salas seguissem o exemplo e abrissem as portas. Se apostarem na diferença (cinema de autor, conferências/debates pré-exibição, etc.), acredito que podem conseguir.

Limões said...

O velho copofónico Arezes!!! Julguei que tivesse morrido!!!