terça-feira, janeiro 26

Para falarmos do meio de obter o poema


Para falarmos do meio de obter o poema,
a retórica não serve. Trata-se de uma coisa simples, que não
precisa de requintes nem de fórmulas. Apanha-se
uma flor, por exemplo, mas que não seja dessas flores que crescem
no meio do campo, nem das que se vendem nas lojas
ou nos mercados. É uma flor de sílabas, em que as
pétalas são as vogais, e o caule uma consoante. Põe-se
no jarro da estrofe, e deixa-se estar. Para que não morra,
basta um pedaço de primavera na água, que se vai
buscar à imaginação, quando está um dia de chuva,
ou se faz entrar pela janela, quando o ar fresco
da manhã enche o quarto de azul. Então,
a flor confunde-se com o poema, mas ainda não é
o poema. Para que ele nasça, a flor precisa
de encontrar cores mais naturais do que essas
que a natureza lhe deu. Podem ser as cores do teu
rosto – a sua brancura, quando o sol vem ter contigo,
ou o fundo dos teus olhos em que todas as cores
da vida se confundem, com o brilho da vida. Depois,
deito essas cores sobre a corola, e vejo-as descerem
para as folhas, como a seiva que corre pelos
veios invisíveis da alma. Posso, então, colher a flor,
e o que tenho na mão é este poema que
me deste.

Nuno Júdice in Geometria Variável, Dom Quixote, Lisboa, 2005
imagem: Leila Pugnaloni

4 Comments:

Zaclis Veiga said...

simplesmente lindo.

Pedro Lopes said...

não se fale

faça-se
vivo
o poema

:-)

eu
que eu
o que eu sou
às vezes pedante
às vezes petulante
às vezes só preguiçoso
da preguiça que me dá sono
de ter que ler palavras bonitas
mesmo que de tão bonitas faça o desconto
de as ler mesmo até ao fim
de as ler guloso no ler
e de ser finalmente
confrontado no eu
como é bonito
este poema
que te
deu

Pedro

Teresa said...

Lindíssimo, não conhecia.
Bjs

Bípede Falante said...

Marta, estamos pensando em criar um blog coletivo, talvez, de pessoas de vários países da língua portuguesa, ou, talvez, de algo bem diferente. Sei lá. A ideia ainda está nascendo. Foi do Storino e ele sugeriu o seu nome para entrar na aventura. O que você acha da possibilidade?