quarta-feira, janeiro 6

As cartas do Senhor Mário


Naquele tempo o meu coração estava disfarçado de campainha, no guiador da bicicleta do Senhor Mário. Assim tipo uma anémona pequenina, fora do seu habitat natural. Só que era o meu coração camuflado ali, à mão do carteiro.
Ele subia a estrada, com a bicicleta ao seu lado, fazendo-a deslizar nos paralelos de granito. No Verão, o esforço era maior, sob o sol do meio-dia. Era mais ou menos a hora a que chegava. Encostava a bicicleta ao muro do portão, tirava o lenço do bolso e passava-o na testa como se fosse um limpa pára-brisas. Ajeitava o boné, sorria e tirava as cartas de um dos sacos de couro puídos, apoiados na traseira da bicicleta.
Voltava a sorrir e, às vezes, colocava as cartas em leque, como se fossem cartas de jogar, e tirava a minha, como quem tira um ás de copas. E eu, ali a sorrir-lhe, como se ele fosse o escritor da minha carta; ou como se ele fosse o homem mais bondoso do mundo. O Senhor Mário, carteiro, não era de muitas palavras. Talvez por as carregar todos os dias, aos milhares. Pensava eu. Era mais de sorrisos. Sorrisos assim, como os selos das cartas. Diferentes. Todos diferentes. Nele, só a farda era sempre a mesma. Como a camisa, sempre azul que vestia. E o boné que acondicionava na cabeça. Sempre do mesmo modo.
A primeira vez que vi O Carteiro de Pablo Neruda, também me emocionei por me recordar do Senhor Mário. E da pena que senti, por nunca ter sabido o apelido do carteiro da minha vida. Jiménez, não era de certeza.
Trrim, trrim, trrim. A campainha da bicicleta do Senhor Mário, era a alavanca dos meus dias adolescentes. Ainda hoje é a onomatopeia da minha vida!
Desde miúda que as cartas - todas as cartas – me seduzem. Quando comecei a recebe-las, dirigidas a mim, percebi o porquê da minha intuição. Era o mundo feito abecedário. Muito nosso.
Comecei por receber as cartas da madrinha. Eram envelopes de ternura. Letras miudinhas, sempre cheias de saudade. De beijinhos e santinhos. Foi a madrinha que me ensinou a rezar. E a gostar de pão branco. Como ela. Pedia sempre para me portar bem, para obedecer aos papás. Para não me esquecer do meu anjo da guarda e para lhe enviar desenhos. Depois, mais tarde, eram as cartas e os postais das amigas, durante as férias. Cheias de aventuras e confissões. Repletas de tempo e, tantas vezes, numa fúria contra o tempo por nunca mais nos trazerem os dezoito anos. Como se viver dependesse deles. Daí, às cartas de amor, rídiculas, como convém, não faltou muito.
Um dia, depois de sorrir, o Senhor Mário disse:
- o rapaz é poeta, gosta de escrever. E é de longe! Ah pois é!
E eu corei e virei-lhe as costas, para ele não dar conta, mais rápida do que nunca, na corrida para o lago. Gostava de ler as cartas com os peixes vermelhos perto. No silêncio perfumado do quintal, encostada à tangerineira. Ou então, no terraço, onde a linha do comboio fazia de horizonte. Um dia, o Senhor Mário entregou-me uma carta precedida de um
- diga que sinto muito, menina. E não sorriu. Como de costume. Foi nesse dia que percebi que as cartas também nos deixavam tristes, profundamente tristes, principalmente quando a tristeza era anunciada numa lista preta, no canto superior do envelope. E toda a gente ficava a saber da nossa tristeza, como se a carta fosse um funeral.
Outras vezes, a minha mãe recebia cartas que já tinham andado de avião, antes de viajarem na bicicleta do Senhor Mário. Eram azuis, um azul claro, bordado a vermelho a toda a volta. Faziam-me pensar, essas cartas que atravessavam nuvens para chegar.
Uma vez, o carteiro entregou-me um telegrama. Muito leve. Devia ser das poucas palavras. E então, fiquei certa de que não é preciso muito para a felicidade ser imensa.
Era assim no tempo em que o Senhor Mário, sem saber, andava com o meu coração disfarçado de campainha, no guiador da sua bicicleta. Com milhares de palavras no saco de couro. Cartas com mil histórias dentro. Cartas vividas, que ele vivia.
É o que me ocorre sempre, agora, quando vou à caixa do correio, sem correr. Está atafulhada de publicidade, cartas do banco, da água, da luz, de convites dirigidos ou maillings massivos.
Às vezes, de longe a longe, chega uma carta para mim. De quem sabe que as gosto de ler. A contar-me a vida a tinta preta ou azul. Conforme. Sorrio sempre. Imagino que corro para o lago, onde vivem, ainda, os meus peixes vermelhos. Para a ler no silêncio perfumado que me habita a memória. Mas não sei o nome do carteiro. Uma mulher veloz, de colete CTT. Estaciona o carro, entrega a correspondência. Sem o sorriso cúmplice com que o Senhor Mário selava as cartas.
As cartas de uma vida. Arrumadas numa caixa. Só para ter a certeza de que não sonhei.
in Nós Escritores, revista do i
imagem: Il Postino

9 Comments:

Paulo said...

Lindo texto, Marta. Muito. Parabéns.

Pedro Lopes said...

uma carta é como uma viagem
que atravessa o tempo de todos os lugares

Pedro

Pedro Lopes said...

uma carta


a princesa roncava que nem um serrote
sem saber do barulho que fazia
e o dragão que guardava a porta
ficou saturado do ruído que o não deixava dormir

resolveu tomar o caso em mãos
escreveu carta célere ao príncipe
que, encantado, se alazou de armas (e armadura)
até ao local do possível crime

ao dragão só interessava o fim
e deixou passar o príncipe
a quem a sorte não sabia o que desejar
o dragão só rezava "leva-ma daqui"

e a princesa encantou-se
e o príncipe não porque já era encantado
e viveram felizes para sempre
porque o príncipe era surdo que nem uma porta


Pedro
:-)

Anónimo said...

Gostei muitíssimo, Marta, tanto, tudo, como tu dizes :)
Em poucas linhas fizeste-me viajar muito, como "as cartas que atravessam nuvens para chegar"!
PF

Claudia Sousa Dias said...

"Com o coração feito campainha..."!

esta és mesmo tu!


beijinho grande


csd

Anónimo said...

lindo.
graça

Zaclis Veiga said...

ah minha querida... que lindo.
Tão você.

C. said...

O meu chamava-se Rosalino e também vinha de bicicleta:=)))
Que bom ter relembrado isso tudo. Obrigada, Marta.

Linda a valer, esta narrativa de memórias. Nostálgica, mas cheia de vivacidade, de ritmo, de vitalidade. Parabéns!

Anónimo said...

Fionalmente consegui ler, a tua história do "I"
Parabéns Marta!!!
Gostei MUITO!!!
Como se consegue escrver coisas "Assim"?
Beijo
P