segunda-feira, julho 13

Aqui na Terra - lançamento do livro

Esqueçam a capa. Vamos directos ao miolo. É lá que vivem as histórias, que um dia foram reportagens, na sua maioria, da revista Visão e duas do semanário Independente. [Já extinto, como sabemos.] Há uma história inédita. Mas inéditas, vendo bem, são todas porque, de certa forma, são textos reescritos, limados contra o tempo e com espaço. O espaço que só um livro pode dar, porque um livro é um caudal de margens amovíveis. Ao contrário de uma reportagem. E, de certa forma são, também, todas inéditas, porque nunca antes coabitaram entre as capas de um livro. O livro chama-se Aqui na Terra e o autor é jornalista.

Miguel Carvalho é jornalista, mas podia ser antropólogo. Tem alma de. De João Pina Cabral. Por exemplo. O método das entrevistas para, em antropologia, fazer histórias de vida afina, aqui e ali, com o do jornalismo. Há diferenças, claro. E nem o Miguel Carvalho é antropólogo nem o Aqui na Terra é um diário de campo. É muito mais. No entanto, ao lê-lo não consegui deixar de traçar um paralelo. Nem deixar de pensar que estas histórias também tem «aromas de urze e de lama». Adiante.

As histórias de Miguel Carvalho não são sobre uma comunidade específica ou em extinção, ou, ou, ou... Não. O seu “trabalho de campo” foi realizado numa “comunidade” maior. Um país: Portugal. Com muitas histórias dentro. Muitos rumos. Onde o passado recente é memória colectiva. Onde a actualidade está tecendo História. Onde as pessoas são actores, sem hipótese de serem secundários. O papel principal cabe a cada entrevistado.

«O pecador Os últimos dias do padre Max, assassinado em 1976.O altar Em busca dos milagres que Fátima nunca viu. O cónego O sacerdote que não chegou a ser estátua. A seita O hipermercado da fé da Igreja Universal. A purificação Segredos que a vida encerra nos cemitérios. A celebração A aldeia refractária, orgulhosa da sua identidade. O pastor A vida de Hermínio Carvalhinho, antes e depois da fama. A cruz Viagem às profundezas da terra-mártir: Castelo de Paiva. O ritual A estrada da vida à boleia de um motorista de carreira. A agonia O definhamento das aldeias sem crianças. O santuário Homens que erguem o templo das massas. O martírio A ressaca de gerações numa vila do interior. A aparição O homem que ressuscitou ao passar a fronteira. A devoção À procura de Torga, no centro da terra. A via-sacra O fadário de João Correia, vida debaixo da ponte. A romaria O repórter desencontrado em Vilar de Mouros. A religião A aventura no País dos cançonetistas que entram no ouvido. O imaculado O Zeca Diabo português, de língua afiada e bofetada ligeira.»

Aqui na Terra fala-nos de pessoas. Homens. Terráquios. Dá-nos a conhecer episódios do país da última década em múltiplas frentes. O Portugal multitemático como a vida. A vida que supera sempre a ficção. A vida de um país em [foto] grafias tipo passe. Individuais, nítidas, a conferirem identidade a cada reportagem. São testemunhos ímpares. Documentos únicos. Histórias singulares que fazem o Portugal colectivo. Perfulgente. Baço. Comovido. Esquecido. Saudoso. Penitente. Trabalhador. Devoto. Amador. Aleijão. Sofrido. Bizarro. Contente. Sei lá. Muito Portugal.

Esqueçam a capa. Ou não. Não esqueçam. Porque de facto, após a leitura, dá-se a epifania: este Portugal por dentro, escrito por Miguel Carvalho é divino.
Divino e humano. Demasiado humano.



Muito importante: AQUI NA TERRA, editado pela Deriva, é lançado hoje, dia 14 de Julho, às 21.30, no espaço MAUS HÁBITOS, no Porto. A obra será apresentada por Nuno Higino, professor de Sociologia, escritor e antigo pároco de Marco de Canaveses e Zaclis Veiga, Professora de Fotojornalismo e jornalista brasileira. Estão convidados. Sei que sim.

imagem [fotografia da capa] Lucília Monteiro

14 Comments:

PAS[Ç]SOS said...

Pois... e tempo para ler todas as sugestões que por aqui ficam e nos fazem sentir um 'pecador' perante a incapacidade de chegar a todas elas?

Dalaila said...

Lá estaremos!

Gi said...

Ai, Valha-me o Menino Jesus, mas porque é que eu não me posso alimentar só de livros?

Anónimo said...

Com Muita Pena minha, não vou poder ir...
Bom Lançamento!!!!
BJ
MB

Zaclis Veiga said...

Absorvam a capa!
Absolvam a capa!

Claudia Sousa Dias said...

já absorvi o livro através deste texto, Zaclis!

mas não dispenso a leiutura analítica detelhada e por mim dissecada (lol)...

À lupa!


beijinhos às duas.


csd

C. said...

Uma apresentação que abre o apetite para esta leitura. Talvez o leve comigo em férias. Pelo menos sempre poderei dizer que fui "com Portugal no coração". Que é onde andam sempre os livros de que gosto. Vamos ver se....

Gracias! :-)

Anónimo said...

Se não não for ao lançamento hoje comprarei o livro, pois fiquei muito curioso, Marta, obrigado pela sugestão.
Um beijo
Ricardo CB

catarina said...

não podendo hoje estar presente, espero depois uma descrição detalhada dos acontecimentos, aqui e no cantinho homólogo do autor... porque sendo minha intenção comprar o livro e descobrir bocadinho a bocadinho o seu interior, nenhuma das suas palavras me falará das emoções em voz alta do dia do lançamento.

;)

Anónimo said...

Até já!
Carla

Sofá Amarelo said...

Vou marcar presença virtual porque estou aqui, oh, em Lisboa, mas adoro o Porto, não posso viver sem ir ao Porto de vez em quando, o Porto é mágico, transforma as situações vulgares em situações sublimes... o Porto tem mais encanto na hora da chegada...

Estou ciuriosíssimo com esse livro, vou procurar aqui nas livrarias...

Beijo meu . Abraço ao Miguel Carvalho e à Lucília Mionteiro.

heretico said...

... e "há vida no Porto". cada vez mais.

beijo

João Menéres said...

Como é que eu fiz um comentário aqui a meio da tarde e ele não aparece?
Se calhar, MARTA, fui eu que fiz algima asneirada e apaguei ou qq coisa assim...

Um beijo.

Paula said...

Passando para dizer que tens um prémio no viajar pela leitura...
Prémio Master Blog
Abraços