quinta-feira, junho 4

O meu olhar é nítido como um girassol


O meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas

Olhando para a direita e para a esquerda,

E de vez em quando olhando para trás...

E o que vejo a cada momento

É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem...

Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras...

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,

Porque o vejo. Mas não penso nele

Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele

(Pensar é estar doente dos olhos)

Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,

Mas porque a amo, e amo-a por isso

Porque quem ama nunca sabe o que ama

Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,

E a única inocência não pensar...

Alberto Caeiro in O Guardador de Rebanhos

8 Comments:

PAS[Ç]SOS said...

Conheço! E aprendi a gostar duma forma tão especial!!!

Sonia Potrich said...

Oiiiii Marta,

Que poema lindo! Olha, coincidentemente hoje, que estou um pouco down, entrei no seu blog e me deparei com este lindo poema! Não teria hora melhor para lê-lo!
Um beijoooo
Sonia

Paula said...

lindo...
"amar é a eterna inocência..."

Adorei!
Obrigado pela partilha.
Abraços

vaandando said...

Não pensemos , pois então

abraço
JRMARTO

Su said...

li, reli, li, reli

opss eu não me canso ..imenso


jocas maradas

Maggie said...

O meu heterónimo favorito desse nosso compatriota genial - o grande Fernando Pessoa (ou como digo aos meus alunos para seu desespero "o nosso amigo Fernando" :) )

Adorei!

Claudia Sousa Dias said...

não sei se concordo...

:-)


CSD

Gisela Rosa said...

"Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo..."


sempre maravilhada ao ler Pessoa.
beijinhos