sábado, junho 13

Sei, enfim, que nunca saberei de mim

Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.




o dia dos santos comemora-se no dia em que morrem.

o dia dos Homens e dos Poetas, no dia em que nascem.




Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem, são os que são absurdos - a ânsia de coisas impossíveis, precisamente porque são impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação da existência do mundo. Todos estes meios tons da inconsciência da alma criam em nós uma paisagem dolorida, um eterno sol-pôr do que somos...O sentirmo-nos é então um campo deserto a escurecer, triste de juncos ao pé de um rio sem barcos, negrejando claramente entre margens afastadas.
In Livro do Desassossego: Composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa / Fernando Pessoa

12 Comments:

Paulo said...

Diz Musil (no Homem sem Qualidades) que "...em nenhuma altura da vida somos nós mesmos".
Excelente post.

Claudia Sousa Dias said...

amei.

e, mais ujma vez fiquei com vontade ler Musil agora ao ler o coment do Paulo.


csd

Paulo - Intemporal said...

fantástico e sublime Marta.

a SER PESSOA aqui.

neste soberbo canto teu.

um beijo.
um bom fim de semana.

Su said...

adorei...............

até doeu


jocas maradas menina sábia:)

K said...

Que fico perdido,aturdido cada vez que leio estes "estilhaços" da multiplicidade dos vários que é uma Pessoa!

tinta permanente said...

Pessoalmente acho uma bela homenagem...

abraços!

Tucha said...

Pessoa consegue fazer a língua portuguesa mais bela, na forma com produz o poema. Eterno!

acutilante - frank verlag said...

Que dizer da escolha do Poeta e do poema!? Pois...

Susana said...

Marta: Lindo o poema de Fernando Pessoa! De facto intemporal!

Não há palavras suficientes para comentar estes belíssimos textos!

Gostei de os reler aqui, Marta.

Bjs Susana

PS: Aproveito para agradecer a tua participação da blogagem da aldeia da minha vida. A escolha vai ser uma tarefa muito complicada para nós,perante textos com tão boa qualidade!

heretico said...

"Deixem-me crer
O que nunca poderei ser..."

... e no, entanto. sendo. todos os dias...

gostei muito

beijos

sonja valentina said...

arrebatador, menina marta!

contudo, apesar de fantásticas palavras, vejo-me obrigada a discordar do poema quando diz que nunca teremos uma obra nossa.

a vida de cada um que cada um escolhe e constroí com tudo de bom e mau tem, é obra que baste para que no fim dos seus dias, cada um de nós tenha do que se orgulhar.

mesmo aqueles que aparentemente nada fizeram pela vida...

beijo!

Zaclis Veiga said...

É lindo amiga.
até loguinho, loguinho
beijo