segunda-feira, maio 30

Sempre o mar fascinará


Sempre o mar fascinará aqueles a quem o fastio da vida e a atracção do mistério deram antecipadamente os primeiros desgostos, como um pressentimento da insuficiência da realidade para os satisfazer. Os que têm necessidade de repouso antes de terem experimentado qualquer fadiga, esses terão o consolo do mar, o mar há-de exaltá-los vagamente. O mar não tem como a terra vestígios dos trabalhos dos homens e da vida humana. No mar nada permanece, tudo por lá passa de fugida e, dos barcos que o percorrem, depressa o rasto de desvanece! Daí aquela grande pureza que as coisas da terra não possuem. E esta água virgem é muito mais delicada do que a terra endurecida que tem de ser aberta pela enxada. O passo de uma criança na água cava nela um sulco profundo com um ruído claro e os cambiantes unidos da água ficam por isso momentaneamente rompidos; depois apagam-se todos os vestígios e o mar tornou a ficar tão calmo como nos primeiros dias do mundo. O que está cansado dos caminhos da terra ou que adivinha, antes de ter experimentado, como eles são ásperos e vulgares, ficará seduzido com as pálidas rotas do mar, mais perigosas e doces, incertas e desertas. Tudo nele é mais misterioso, até as grandes sombras que por vezes flutuam serenamente sobre os campos nus do mar, sem casas e sem sombras, e que nele estendem as nuvens, esses lugares terrestres, essas vagas ramarias.

O mar tem o encanto das coisas que não se calam de noite, que para a nossa vida inquieta são uma autorização para dormir, uma promessa de que não vai tudo cair no nada, como a luz para as crianças que se sentem menos sós enquanto ela brilha. O mar não está separado do céu, como está a terra, o mar está sempre em harmonia com as cores, impressiona-se com os seus mais delicados cambiantes. Brilha ao sol e parece todas as noites morrer com ele. E depois de ele ter desaparecido, continua a lamentá-lo, a conservar um pouco de recordação luminosa, face à terra uniformemente escura. É o momento dos seus reflexos melancólicos e tão doces que, olhando-os, se sente o seu coração desfazer-se. Quando a noite está prestes a cair e o céu escurece sobre a terra enegrecida, o mar continua a luzir levemente, não se sabe por que mistério, por que brilhante resquício do dia submerso sob as águas.

O mar refresca a nossa imaginação porque não faz pensar na vida dos homens, mas alegra a nossa alma porque, tal como ela, é aspiração infinita e impotente, ímpeto incessantemente quebrado, lamento eterno e doce. Ele encanta-nos, como a música, que não traz em si, como a linguagem, vestígios das coisas, que nada nos diz dos homens, mas imita os movimentos das nossas almas. Erguendo-se com as vagas, caindo com elas, o nosso coração esquece as suas próprias fraquezas e consola-se numa harmonia íntima entre a sua tristeza e a do mar, que confunde o seu destino e o das coisas.

in ”Os Prazeres e os dias“, Marcel Proust (Tradução de Manuel João Gomes, Ed. Estampa)

[desviado daqui]

1 Comment:

Carlos Azevedo said...

[já está! :)]