domingo, maio 15

Amor Poesia Sabedoria


A ideia que se possa definir homo, dando-lhe a qualidade de sapiens, isto é, de um ser razoável e sábio, é uma ideia pouco razoável e sábia. Ser Homo é também demens: manifesta uma afectividade extrema, convulsiva, com paixões, cóleras, gritos, mudanças brutais de humor; traz em si uma fonte permanente de delírio; crê na virtude de sacrifícios sangrentos; dá corpo, existência,  poder a mitos e deuses da sua imaginação. Há no ser humano um salão permanente de Ubris, a desmesura dos gregos.

A loucura humana é fonte de ódio, crueldade, barbárie, cegueira. Mas sem as desordens da afectividade e as irrupções do imaginário, sem a loucura do impossível, não existiria entusiasmo, criação, invenção, amor, poesia.  Deste modo, o ser humano é um animal não só insuficiente em razão mas também dotado de sem-razão.

Todavia, temos necessidade de controlar  homo demens para exercer um pensamento racional, argumentado, crítico, complexo. Temos necessidade de inibir, em nós, o que demens tem de mortífero, mesquinho, imbecil. Temos necessidade de sabedoria, que nos pede prudência, temperança, cortesia, desprendimento.

Prudência, sim, mas não será esterilizar as nossas vidas ao evitar  o riscos a todo o preço? Temperança, sim, mas será necessário evitar a experiência da "consumação" e do êxtase? Desprendimento, sim, mas será mesmo necessário renunciar aos laços de amizade e amor?

O mundo em que vivemos é, talvez,  um mundo de aparências, a espuma de uma realidade mais profunda que escapa ao tempo, ao espaço, a nossos sentidos e a nosso entendimento. Mas o nosso mundo da separação, da dispersão, da finitude, é também o da atração, do encontro, da exaltação. Estamos completamente imersos neste mundo que é o de nossos sofrimentos,  das nossas felicidades e dos nossos amores. Não sentir é evitar o sofrimento mas também o regozijo. Quanto mais aptos estamos para a   felicidade, mais aptos estamos para a infelicidade. O Tao-to-kung diz precisamente: "A infelicidade caminha de braço dado com a felicidade, a felicidade deita-se aos pés da infelicidade."

Estamos condenados ao paradoxo de conservar em nós, simultaneamente, a consciência da vacuidade do nosso mundo e da plenitude que nos pode trazer a vida quando quiser ou puder. Se a sabedoria nos pede para nos desprendermos do mundo da vida, será ela verdadeiramente sábia? Se aspiramos à plenitude do amor, seremos nós verdadeiramente loucos?

[...] reconhecemos o amor como o cúmulo da união da loucura e da sabedoria, isto é, que no amor, sabedoria e loucura não só são inseparáveis como se entregeram uma à outra. Reconhecemos a poesia não só como modo de expressão literária, mas como o estado, dito segundo, que nos surge da participação, do fervor, da admiração, da comunhão, da embriaguez, da exaltação e, claro, do amor, que em si contém todas as expressões do estado segundo. A poesia está liberta do mito e da razão trazendo em si a sua união. O estado poético transporta-nos através da loucura e da sabedoria, para além da loucura e da sabedoria.

O amor é parte da poesia da vida. A poesia é parte do amor da vida. Amor e poesia geram-se um ao outro e podem-se identificar um ao outro.
Se o amor é a união suprema da sabedoria e da loucura, temos que assumir o amor.
Se a poesia transcende sabedoria e loucura, temos que aspirar a viver o estado poético e evitar que a prosa absorva as nossas vidas que são, necessáriamente, tecidas de prosa e poesia.

A sabedoria pode problematizar o amor e a poesia, mas o amor e a poesia podem, reciprocamente, problematizar a sabedoria. A via aqui encarada que nela conteria amor, poesia, sabedoria, comportaria nela própria esta mútua problematização.
Devemos fazer tudo para desenvolver a nossa racionalidade, mas é no seu próprio desenvolvimento que a racionalidade reconhece os limites da razão e efectua o diálogo com o irracional.
O excesso de sabedoria torna-se louco,a sabedoria só evita a loucura misturando-se com a loucura da poesia e do amor.

O nosso presente está em busca de sentido. Mas o sentido não é originário, não vem do exterior dos nossos seres. Emerge da participação, da fraternização, do amor. O sentido do amor e o sentido da poesia é o sentido da qualidade suprema da vida. Amor e poesia, quando concebidos como fins e meios do viver, dão plenitude de sentido ao "viver para viver".

Portanto,  podemos assumir, mas com plena consciência, o destino antropológico do homo sapiens-demens, isto é, jamais cessar em nós o diálogo entre sabedoria e loucura, ousadia e prudência, economia e despesa, temperança e "consumação", desapego e apego.
É aceitar a tensão dialógica, que mantém em permanência a complementaridade e o antagonismo entre amor-poesia e sabedoria-racionalidade.

Edgar Morin, in Amor, Poesia, Sabedoria, pag. 9/13, Instituto Piaget,
Tradução: Ana Paula de Viveiros

imagem:Gilbert Garcin

2 Comments:

Bípede Falante said...

Assisti uma palestra do E.M. aqui em Porto Alegre. Ele, além de brilhante, é também um doce.
beijos

cs said...

:9 está na Feira do Livro :)