quarta-feira, maio 4

Onde foste ao bater das quatro horas...


Onde foste ao bater das quatro horas

e, antes, quem eras tu, se eras?

Amigo ou inimigo, posso falar-te agora

sentado à minha frente e com os ombros

vergados ao peso da caneta?

Falo-te sobre a cabeça baixa

e vejo para além de ti, no horizonte,

teus riscos e passadas;

mas não sei onde foste, nem se eras.

Olho-te ao fundo, sob o sol e a chuva,

fazendo gestos largos ou só um leve aceno;

dizes palavras antigas,

de antes das quatro horas,

e nada sei de ti que tu me digas

dessa cabeça surda.

Não te pergunto pela verdade,

que pensas de amanhã ou se já leste Goethe;

sequer se amaste ou amas

misteriosamente

uma mulher, um peixe, uma papoila.

Não quero essa mudez de condolências

a mim, a ti, ou só à terra

que tu e eu pisamos — e comemos.

Pergunto simplesmente se tu eras,

quem eras, e onde foste

depois que se fizeram quatro horas.



Será que não tens olhos? Não tos vejo.

De longe em longe

agitas a cabeça, mas talvez seja engano.

Palavra, não te entendo.

Amigo, a que vieste?



Pedro Tamen, in Horácio e Coriáceo
 
[com um imenso obrigada ao JD]

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