sexta-feira, maio 20

Experimento então esta liberdade nova:


Experimento então esta liberdade nova: Que desejas tu saber se é verdadeiro e que modo de verdade interessa à tua interior coisa verdadeira? — O amor, respondi eu, o amor. Desejo saber a verdade do amor, respondi eu, segundo a verdade do amor.


Não está mal, pensei bem dentro de mim, enquanto andava de um lado para o outro dos dias, não está mal para começar.

Era então o amor. O amor queima as mãos, disse a minha pequena sabedoria, e as vísceras. A ciência também queima as mãos. E o medo também. Tudo queima as mãos. Precisas escolher o teu fogo.

Escolho o fogo do amor, respondi eu. E experimentei esta nova liberdade.

Estou no centro dos meus poderes — disse. — Estou no meu crime.

Que coisa era o amor para que eu o amasse assim? O amor é escrever-me, transcrever-me, traduzir-me, colocar-me. É pegar em mim, e pôr-me ao mesmo tempo dentro e fora de mim; e reconhecer outra pessoa, trazê-la, rescrevendo-a, e pô-la dentro e fora de si, e tudo se encontrar. E o tempo? O tempo no tempo. E o lugar? O lugar no lugar.

Mas isso mata — pensei eu.

Sim, isso mata — respondi. — Isso queima as mãos, e mata verdadeiramente.

Experimentei esta nova liberdade, e vi que era a loucura que eu esperara como quando se está sem casa e se faz a gente arquitecto, para construir uma casa e dizer: Eis a minha casa. Edificar a casa era queimar as mãos, coisa realmente mortal. E, depois de haver casa, podia-se entrar nela com a nossa morte.

Herberto Helder

Exercício Corporal III in Poesia Toda , 1953–1980, Assírio e Alvim, 1981

imagem: Lucia Messeguer

4 Comments:

josé luís said...

:)

Marta said...

;)

cs said...

O HH é único em Portugal e dos únicos no mundo. São tão poucos os que se questionam e pensam.

fallorca said...

«Eis a minha casa. Edificar a casa era queimar as mãos, coisa realmente mortal. E, depois de haver casa, podia-se entrar nela com a nossa morte.»
Bom fds