segunda-feira, maio 23

Falo daquilo que vejo, embora possas pensar que sou


Falo daquilo que vejo, embora possas pensar que sou cego

seguindo as mãos - sim, toco as palavras nas suas superfícies

e utensílios.


A primeira palavra que os olhos viram, agora que a recordo,

parecia uma imagem - sim, um som desenhado como um fóssil

(falo de fóssil, mesmo

que ele demore muito a aparecer no que digo),

um som do tamanho de um azulejo: agora que me lembro que era uma palavra


que brilhava nos meus olhos ao vê-la

(ver uma palavra era uma planta muito diferente,

um oxigénio muito difícil de se respirar).


Sim, agora vejo que falo, embora possas pensar que sigo pelo tacto a escrita.

Sim, eu leio e decifro. E agora sei que oiço as coisas devagar.


Daniel Faria, Poesia, Quasi Edições, 2003

2 Comments:

Priscila said...

Com o "há vida em Marta" aprendi a receber pela internet, agora esotu treinando doar... conhece o Evgen Bavcar?
http://obviousmag.org/archives/2007/06/as_trevas_luz.html

seu post me lembrou dele, é um fotógrafo esloveno naturalizado francês.

beijinhos

josé luís said...

ah... as palavras.
(estas de daniel faria lembraram-me as de ramos rosa)