quinta-feira, março 18

Segunda infância


À tua palavra me acolho lá onde

o dia começa e o corpo nos renasce

Regresso recém-nascido ao teu regaço

minha mais funda infância meu paul

Voltam de novo as folhas para as árvores

e nunca as lágrimas deixaram os olhos


Nem houve céus forrados sobre as horas

nem míseras ideias de cotim

despovoaram alegres tardes de pássaros

O sol continua a ser o único

acontecimento importante da rua

Eu passo mas não peço às árvores

coração para além dos frutos

Tu és ainda o maior dos mares

e embrulho-me na voz com que desdobras

o inumerável número dos dias

Ruy Belo , Obra Poética, vol. 1, Presença, Lisboa, 1981
[infelizmente desconheço o autor da imagem]

3 Comments:

Vera Y. Silva said...

Deve ter sido difícil para Ruy Belo afastar-se da religião, mas as suas dúvidas e sofrimento tiveram estes maravilhosos frutos. Há uma série de poemas muito bons em que existe uma interessante ambiguidade (pelo menos para quem não sabe muito sobre a sua vida): estará a referir-se a Deus ou à pessoa amada?

heretico said...

Poema muito "Belo". sem dúvida...
gostei muito de (re)ler. aqui...

beijos

Zaclis Veiga said...

É lindo e triste e tão repelto de uma certa urgência que desconheço ou, talvez, que reconheço e me distancio.