sexta-feira, março 19

As raparigas amam muito.



As raparigas amam muito. Riem

atrás das mãos uma manhã inteira

para esconder o vermelho dos

beijos que alguém lhes roubou e

um nome que vão deixar escapar

entre as primeiras palavras que

disserem. Vestem do avesso os



aventais de chita e fazem o leite

sobrar do fervedor e o caldo ser

mais salgado do que o mar. Mas



é bonito vê-las caminhar descalças

ao longo do corredor, como se

pedissem um par para dançar. As



raparigas amam tanto. Sentam-se

em rodas de segredos uma tarde

inteira e esquecem no tanque os

colarinhos sujos das camisas, e os

cueiros, e uma barra de sabão a



derreter-se como o seu coração.



Mas é bonito vê-las beijar a boca

ao espelho no quarto das traseiras

e também a outra boca no retrato

que a seguir escondem amordaçado

na algibeira, não lhes cobice alguém

o que não tem. As raparigas amam



de mais. Deixam-se ficar sem dizer

nada uma noite inteira, bordando

no linho dos enxovais letras secretas

ao calor do fogão. E picam os dedos



distraídos nas agulhas que usaram

para descobrir o sexo de cada filho

que terão num jogo que jogaram

entre elas à tardinha. Mas é bonito



vê-las ao serão, quando o vento as

chama atrevido da cozinha e dão

um pulo seco na cadeira, e largam o



bordado e a lareira, e correm até à

porta a colher beijos que lhes deixam

risos nos lábios tão vermelhos como

as mais doces cerejas deste verão.


Maria do Rosário Pedreira in “Nenhum nome depois", edição da Gótica
imagem: Tarsila do Amaral

7 Comments:

Carlos Azevedo said...

Aqui entre nós: apesar de serem ambos belíssimos, gosto mais do "Nenhum nome depois" do que d'"O Canto do Vento nos Ciprestes".
Abraço.

João Menéres said...

Muito gracioso este
AS RAPARIGAS AMAM MUITO.

E os rapazes?
Nem queiras saber o que eles fazem...

Um beijo.

Leonardo B. said...

[cada vez ando mais contente com a minha ignorância... ainda há tanta bagagem para colocar lá dentro... mas claro "com uma pequena ajuda dos amigos", quase missionários das grandes palavras.
Obrigado pela partilha.]

Um imenso abraço, Amiga Marta

Leonardo B.

as abóboras mecânicas said...

Olá Marta!
O Ajavardamento Poético está a ser desenvolvido no âmbito da disciplina de Área de Projecto por cinco alunas do 12º ano da Escola Secundária do Padrão da Légua.
Neste sentido estamos a organizar um encontro de poetas com leitores de poesia. Ocorrerá no dia 25 de Março, quinta-feira, por volta das 15 horas na Casa Museu Abel Salazar. Seria muito importante para a divulgação do projecto que de alguma maneira colaborasse connosco.

Vão estar presentes autores como Jorge Velhote, Amadeu Baptista, Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Sara Canelhas, Nuno Dempster, Teresa Tudela, Viale Moutinho e Vicente Ferreira da Silva.

abóboras mecânicas

( há mais informações no nosso blogue )

Janaina Amado said...

Marta, vim lá do Mínimo Ajuste, e não me arrependi: gostei muito deste seu espaço, com poesia de boa qualidade e imagens de bom gosto. Além do mais, você é do Porto, cidade que eu acho linda. Um grande abraço brasileiro. Voltarei a este seu planeta.

Zaclis Veiga said...

tão lindo e singelo

senti saudade do tempo que beijava o espelho e sonhava com o amor
:)

Anónimo said...

MARTA, OBRIGADO.

Não conhecia.