segunda-feira, março 15

O dia estava acabado.


«Mas o que enfim se não entende
É que aquele que se prende
É quem nos prende a nós»
Gustavo Matos Sequeira in Bocage

O dia estava acabado. Ao menos para aquela gente. Ao seu sinal de arrastar a cadeira tinham-se levantado, os apetrechos sumptuários já arrumados nas pastas, nas carteiras de marca enormes das mulheres, para todo o serviço. Alguns, em desfastio subreptício, guar­davam a esferográfica posta à disposição, as folhas A quatro virgens de notas e rabiscos, com o timbre da casa. A fadiga, o alívio. A reunião correra muito bem. As congratulações finais. A repugnância.

Diante do espelho enche a concha das mãos de água fria. Passa a cara, a água gelada dos canos desliza pelo interior dos punhos aos pulsos. O arrepio passa ànuca, às espáduas. Olha-se, vê-se. As bolsas do des­gaste, a cara sem decifração possível ainda afivelada. O sangue sobe ao estímulo do frio. Remoça em segun­dos para aparar a noite. A bela feição a cinzel. Nada mudou no espelho da emanação dos balneários, dos sanitários de liceu, de hotéis e casas. Nada. Dorian Gray ao invés. O olhar fixo que ainda transtornava os lugares públicos, passeado, fixo e solto. A avaliação que demite, o desprezo.

Enxuga a cara. Um rubor de pedra nos malares. As pessoas são escolhidas pelo que têm, não pelo que lhes falta. Lei da selva? Exactamente. Incompetentes, obtu­sos, cães da intriga uns dos outros, da sua. A figura no espelho encolhe os ombros, arremeda-o num esgar a reaver a lassidão da pele enxuta. Penteia-se, acha-se bem naquele rosto que vem da terra. Da terra, dissera-lhe o amigo há tantos anos. Da terra, como um usur­pador a cavalo, com esses olhos mongóis. A guinada na memória afasta-o do espelho.

A reunião correra bem. Iam satisfeitos consigo, coniventes com ele até à próxima intriga, aos vapores da cobiça e da intriga apaixonada em todos os escalões. Aquela gente não tinha vida própria sem noticiar-se, sem denunciar-se. O trabalho não era conseguir, era resultar contra alguém. E ele, onde chegara e porquê, o afecto, todo o afecto coarctado. Temido sem estima, informado a medo, arredio à convivialidade e à delação. O cargo. Exactamente. Uma carreira temível, esco­lhido sempre mais alto em momentos de risco, não dê fraqueza. Quando se requeria uma testa de ferro. Riu-se sozinho, que era como se ria, lembrando-se da mulher que já não tinha, que nunca quisera ter. Objec­tos que não consumia, não consumira ninguém. Reti­rava, sem desejo na alma, um mínimo. Os outros impacientavam-no, e as emoções.

No elevador os espelhos já foram como se não exis­tissem. Pelo palácio quase vazio onde não fez som, os funcionários menores levantaram-se à sua passagem. Eram os únicos que pareciam agradecidos da sua brus­quidão, que lhes enformava as vidas num sem sobres­salto: sem afabilidade e sem destemperos. Sem favor, nem desfavor.

Despediu o motorista que aprendera a colocar as fei­ções pelo seu registo. Aprendera, há muito, com as passagens de mão. Cada um e o tudo o que se ouve uma lição de impassibilidade e mutismo.

A noite estava de uma grande frialdade enevoada, sem chuva. Levantou a gola do sobretudo e não estu­gou o passo sobre o lajedo do grande átrio aberto, a praça lúgubre. Deixara a pasta para seguir de madru­gada. Estava uma noite de desafios parados, serenís­sima, as núvens de bafo a acompanharem-lhe a cabeça.

O homem caminha, cisma e olha. É assim que pensa, pondera, vê, em passos que não se ouvem. Não há vivalma, ouve-se o tráfego ao longe. Uma rata soer­gue-se na sarjeta próxima. As guias finas brilham aus­cultando o ar sem aragem. Retoma o seu que fazer. Reconhece, nas vibrissas, o que nele vibra, frio e cauto. Igual para igual. Macio, as patas frias. Medonho para quem não for dessa espécie, dessa variante. O homem avança para a outra praça que tem uma torre que sai do solo. Como é seguro o sereno. Na boca da noite o homem acha os lugares que fazem o sereno e lhe convem.

Helena pode estar lá, detrás da torre, é um dos luga­res onde se arrima. Não hoje. O homem refaz o cami­nho de regresso, lento, sem busca, às luzes da cidade, por outra trajectória possível nas rotinas da hora parada.

Helena está sentada no banco do espaço arborizado que confina com a fachada iluminada do palácio, a sul-poente. Da fachada com as altas janelas e portadas entaipadas que dão para o nada, dos debruns altíssi­mos das salas e quartos de que só resta uma quarta parede, as chagas das obras incompletas há décadas. Iluminada ao alto, a bela ruína, mas não o banco de pedra onde está Helena, à sombra dos eucaliptos já idosos, os sós eucaliptos daquele lugar de passagem ermo, eucaliptos e detritos e escaras de estuque arcaico do palácio contíguo, com as suas arcadas cegas.

Ai, diz Helena, hoje vem mais tardio, doutor. Não épetulante, Helena, nem popular no dizer. Mais parece suspiro de mágoa mundana, a frase feita. O homem senta-se ao lado dela, as mãos nos bolsos com os pole­gares agarrados nos punhos. Não se enfrentam, mas ele vê com o horror crescente de todas as vezes o que ela traz vestido: um casacão roto que decerto perten­ceu a homem ou a mulher alentada, uma camisa de noite de flanela com motivos infantis que lhe tapa os joelhos. Numa das pernas tem uma ligadura suja, enrodilhada já. Nos pés, as botinas cambadas deste Inverno, peúgas de lã descaídas.

Não é um jardim, não é uma alameda, não há pas­santes. [...]

Maria Velho da Costa, in Vozes e Olhares no Feminino
imagem. Mónica Garcia

1 Comment:

João Menéres said...

Belo texto, sem dúvida.

A propósito de espelho, Marta,lê o que, e o como, o Jorge Pinheiro escreve hoje no seu blogue (Expresso da Linha).

Um beijo.