quarta-feira, março 24

Poesia vertical


Cada poema faz olvidar o anterior,

apaga a historia de todos os poemas,

apaga sua própria historia

e até apaga a história do homem

para ganhar um rosto de palavras

que o abismo não apague.


Também cada palavra do poema

faz olvidar a anterior,

se desprende um momento

do tronco multiforme da linguagem

e depois se reencontra com as outras palavras

para cumprir o rito imprescindível

de inaugurar outra linguagem.


E também cada silêncio do poema

faz olvidar o anterior,

entra na grande amnésia do poema

e vai envolvendo palavra por palavra,

até sair depois e envolver o poema

como uma capa protetora

que o preserva dos outros dizeres.


Tudo isto não é raro.

No fundo,

também cada homem faz olvidar o anterior,

faz olvidar a todos os homens.



Se nada se repete igual,

todas as coisas são últimas coisas.

Se nada se repete igual,

todas as coisas são também as primeiras.

Roberto Juarroz
[tradução de Gerana Damulakis]

imagem: rosa meditativa, retirada daqui.

4 Comments:

Roberto Marín said...

Marta, que bello tu blog, no he leido todo pues aunque nuestros idiomas se parecen hay palabras que se me escapan, pero te dejo comentario en este post poque particularmente esta poesía me ha gustado mucho.También me gustó mucho la ilustración de "Tivesse ainda tempo entregava-te o coracao" hermosa.

Lisarda said...

Obrigado, cara Marta, por visitar o meu blog- a traduccao de Gerana há um plus mágico, pois ela tene, em sua casa, o mesmo quadro de Dalí que ilustra minha postagem.
E,aínda mais, é mágico que tú me escrevas desde Porto, a cidade natal de meu admirada Ana Hatherly.
A literatura portuguesa é um continente pra mim: agora estou com Sináis de fogo de Jorge de Sena, um livro exquisito, embora seu trasfondo.
Escreves, também, no Mínimo ajuste? Procuraré ler-te lá e seguir o teu blog, cujo nome é inesquecível
Un abrazo, Ignacio

Sergio Storino said...

Marta,

Lindo poema. Não domino o espanhol, mas me parece que a tradução da Gerana preservou a sonoridade e os sentimentos da poesia.

Beijo.

Maria Regina said...

Lindo poema!
Gostei muito do seu espaço!Sensível.
Um abraço