segunda-feira, março 15

O mar que a gente faz


Os dias passam e eu estou quase a ser maior. A mãe põe um calendário que nesse mês tem uma flor azul a contar os dias até ser grande e eu mal posso esperar para que a flor caia. O calendário está na cozinha e eu também a riscar, todos os dias, o que me falta. A mãe e o pai já me perguntaram o que eu queria para os anos e eu respondi:

- Qualquer coisa.

Eu sei que não é real um menino não querer as coisas todas, mas eu sou assim... e só quero uma: ser grande para poder ganhar guelras como o Lito e o pai e não ter medo do mar nem das coisas que lá andam.

O dia vai calhar no fim-de-semana. Acho que vai...acho que vai...acho que vai...calhou.

É um sábado. Acordo na minha cama, a que também faz as vezes de sofá. O Lito dorme como quem ressona sem sonhar,parado como um morto. O pai e a mãe não se ouvem. O relógio marca as horas, mas não as sei ver, mas pelas frinchas do sol muito morno deve ser cedo, muito cedo. [...]


João Negreiros in O Mar que a gente faz, pag. 71, Camões e Companhia

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