quarta-feira, março 31

Metade da Gente do Mundo


Metade da gente do mundo ama a outra metade,


metade da gente odeia a outra metade.


Por causa desta e daquela metade terei eu de vaguear


e me transformar incessantemente como chuva no seu ciclo,


terei eu de dormir entre rochas, tornar-me áspero


como os troncos das oliveiras,e ouvir a lua uivar para mim,


e camuflar o meu amor com receios,


e brotar como erva assustada entre os carris


do caminho de ferro,


e viver submerso como uma toupeira,


e quedar-me com raízes mas sem ramos,


e não sentir a minha face contra a face de anjos, e


amar na primeira caverna, e casar com a minha mulher


sob uma abóbada de vigas que sustentam a Terra,


e expressar a minha morte, sempre até ao último sopro e


às últimas palavras e sem nunca compreender,


e colocar mastros sobre o telhado da minha casa


e um abrigo antiaéreo debaixo dela.


E ir apenas para regressar e passar por todos os lugares –


gato, pau, fogo, talhante, entre o cabrito e o anjo da morte?


Metade da gente ama,metade da gente odeia.


E qual é o meu lugar entre tais iguais metades,


e por que fenda verei eu o bairro de casas


brancas dos meus sonhos e as pegadas nuas


na areia ou, pelo menos, o lenço da mulher que acena


junto às dunas?


Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita

retirado daqui.

4 Comments:

Teresa said...

Muito, muito bonito!
Não conhecia.
Bjs

Angélica Lins said...

Nossa, Marta que belo!
Sua alma... Sempre encantadora.
=)

Bípede Falante said...

Simplesmente absoluto e intenso!

Carlos Eduardo Leal said...

Querida Marta,
Vivemos pelas metades porque ser inteiro é perder-se de si mesmo. Linda poesia,
Bjs
Carlos Eduardo