segunda-feira, março 8

Antes de ser Feliz I


Quando era pequenino, lembro-me bem, a minha professora chamava-se Carminda. Era da Póvoa de Varzim e falava-nos muitas vezes da linguagem inventada pelos pescadores e do vento poveiro. Achava a temática fascinante e arvorava a teoria de que o linguajar piscatório merecia tantos ou mais estudos do que o mirandês, língua perdida, mas reconhecida como língua oficial em Portugal.
Isso agora não interessa. Ela contava que vivia perto do cemitério, mesmo ali à beira dos mortos, do cheiro das flores das senhoras que fazem o favor de manter esse negócio, do barulho do portão de ferro que rangia, gemia e chorava sempre que entrava mais um carro funerário. A morte era um ritual normal na vida da minha professora. Do que ela mais gostava era de observar o cemitério à noite. Tinha um fascínio enorme por aquilo e fazia apostas.
Há quem olhe para o céu à espera de uma estrela cadente, ardentemente à espera de pedir um desejo, condensar naquele rasgo luminoso, em queda livre, todas as esperanças de uma vida. Carminda preferia olhar para o cemitério e perceber onde estavam os mortos novos
pelos gases que passeavam no ar, como uma última manifestação dos corpos que partiam.
A mãe dizia-lhe que tinha demasiada imaginação.
Carminda jurava o conto do coveiro como verdadeiro:os gases eram como as almas a ir para o céu, devagar, a libertarem-se dos cadáveres e ela gostava de os ver, a desfazerem-se no negro da noite, contra a parca iluminação dos candeeiros velhos, de ferro antigo e ruidoso, que compunham o cenário do cemitério.
Eu gosto de pensar que morreu ali, na Póvoa, a olhar as almas gaseadas enquanto atormentava uma prol de netos que reviravam os olhos de cansaço por ser sempre a mesma história.
Patrícia Reis in Antes de ser Feliz, Dom Quixote

1 Comment:

PAS[Ç]SOS said...

... quando os sentidos acordam em palavras que nos embalam, só resta agradecer tão bendita criatividade... ou memórias despidas da pele para colocar na folha de papel.