sábado, agosto 28

As sete vidas do Porto


[só quem sente o Porto, o escreve assim...]
«Os portuenses trocaram o marasmo e a morrinha pela movida. Bares, galerias, lojas e eventos agitaram ruas e deram glamour a quarteirões decadentes. O Porto está no mapa e a Baixa na moda. Falta. habitá-la. Há vida para além dos copos?

Sentado numa das mesas do Café Piolho, horas antes de a Praça Parada Leitão se transformar no habitual enxame das noites de sábado, o radialista Álvaro Costa folheia o Financial Times. A leitura das páginas salmão recorda-lhe uma evidência: agora, já não precisa de andar com uma lupa à cata de notícias sobre o Porto na Imprensa internacional. Dos jornais de referência às sedutoras Wallpaper e Monocle "têm sido publicadas muitas e boas coisas. Isto está a mexer!".

Nas artérias das redondezas borbulha esse novo burgo, renascido da oratória da lamúria. Arranham-se guitarras para os concertos de rua do Porto Sounds e reservar mesa para jantar pode ser um martírio antes do mergulho nas seduções que a noite tece. "Mistura de Antuérpia, Bruges e Amesterdão, com uma pitada de Dublin", eis a cidade que salta agora aos olhos, "sem mortos nem feridos", diz Álvaro Costa.

Baixa é conceito vago, não se sabe onde começa e acaba.

Das janelas da Rua da Torrinha saem sons de violinos desencontrados. Nas Galerias Lumière, dão-se os últimos retoques nos preparativos para mais um flashback musical até o dia raiar. No Espaço 77 da Travessa de Cedofeita fritam-se os rissóis que vão aconchegar os estômagos líquidos e dançantes da Casa de Ló ou do Pherrugem. O Rádio deixou a sua gruta em Miragaia e botou corpo: agora é esplanada, bar e discoteca com varanda para a Praça Filipa de Lencastre, desassossego das almas noctívagas e dos hóspedes do Hotel Infante Sagres (conta-se que, no início da movida, um sheik árabe terá saído desaustinado do quarto, a meio da noite, enfurecido com o marulhar da onda tripeira).

Na Rua da Galeria de Paris, a Meca do momento, a tarde cai lenta no bar-restaurante com o mesmo nome, rodeado de armários antigos que guardam velhos rádios, brinquedos, cartazes de cinema e outras memórias feitas relíquias.

Mas a noite não tarda e entupirá a rua.

Quase defronte, a Casa do Livro espera nova enchente madrugada dentro, enquanto o piano descansa de outras folias tardias.

Em dias de semana, o ritmo do camartelo e o corrupio de camiões com entulho anunciam um processo de renovação em curso na Rua do Almada, que já foi "dos ferreiros. Na artéria freak, onde o restaurante Cão Que Fuma ainda é, para alguns, ponto de partida para a noite, refazem-se fachadas e pintam-se casas para alugar e vender. Isto, anos depois da chegada da loja-galeria-livraria-bar Maria Vai com as Outras e das montras de vinis, de mobiliário vintage, de artesanato urbano, de vestuário, da seita da lomografia e outras devoções.

Design arrojado de interiores, espírito inventivo e filosofias não convencionais associadas aos negócios determinam cultos, diferenciam lugares, impõem estilos. "O Porto tem hoje espaços com um cuidado estético e um conceito associado que são quase imbatíveis", sugere Pedro Araújo, que abriu o Cafe au Lait no silêncio sepulcral da hoje incontornável e ruidosa Galeria de Paris. "Da arquitetura ao mobiliário, da música às bebidas, quis dar personalidade e coerência ao lugar", justifica o dono deste café-bar, moderno e antigo q.b., frequentado por senhoras "chá das cinco ", profissionais liberais e estudantes wireless, conforme as vagas do dia.

Noite dentro, com o cartão de consumo obrigatório abolido na maioria dos espaços bebíveis, o Porto, mais democrático, desagua em definitivo na rua, entrando e saindo dos sítios quando e como lhe dá na telha.

Para Álvaro Costa, este bulício deu à Baixa um ar de "centro Erasmus rock & roll", com ritmos e traços "da geração digital" a refletirem-se em "movimentos artísticos e tendências que vão do sítio x à maluqueira z". Não faltam o toque bourgeois, decorações e postura retro chic, ares de "capitalismo copofónico " e figuras como Rui Moreira, da Associação Comercial do Porto, "o nosso Bernard Henri-Lévy. Tão confortável a pensar a cidade, a comer uma francesinha ou a tomar café em Tóquio". A urbe vive "o seu PREC tardio. O 25 de Abril está ainda muito fresco, mas lá chegará o 25 de Novembro", antecipa o animador da emissora pública.
E, NO ENTANTO, MOVE-SE...
Foi tudo muito rápido. Mas não tão rápido assim.
Há uns anos, Álvaro Costa punha o pé fora do edifício da RDP na então deprimente Rua Cândido dos Reis e já sabia que ia encontrar "a puta que, todos os dias, prometia deixar a vida" e dar de caras com o "seu" Hitler Manson, "uma dessas figuras de cérebro avariado que vagueiam pela cidade com discursos a norte de Hitler e a sul de Charles Manson".

Nesse tempo, a Baixa era ainda "vida de esquina", recorda o jornalista. Sucediam-se, como na canção, ruelas e calçadas de "pedras sujas e gastas". Lampiões "tristes e sós" iluminavam prédios devolutos, moribundos armazéns de tecidos e o caminhar de uns quantos "fantasmas" inseguros.

Da animação gerada pela Capital Europeia da Cultura, em 2001, nem rasto. O Porto estivera in, é verdade, mas o novo executivo camarário estava out e com a ressaca de obras do evento para pagar. Acabadinho de chegar ao município, Rui Rio prometera guerra aos interesses instalados, pondo-se a jeito: "Ainda não me chamaram inculto, mas pouco falta." Chamaram-lhe isso. E muito mais.

O fascínio da Invicta sobrevivia, lá fora, à custa do habitual tom sépia, ilustrado com o Vinho do Porto, o Douro, as pontes e o casario da "pitoresca cidade" em cascata, vestida com aquilo a que alguns chamam "o charme da decadência ". Desafinado do eterno postal, só o quinteto Universidade, Arquitetura, Serralves, Casa da Música e FC Porto galgava fronteiras e impressionava a exigente e seleta Europa da champions league.

Contestado, La Féria ocupava, entretanto, o Rivoli. Famílias varreram a naftalina da toillete e voltaram a incluir o teatro na agenda. "Não sofro de complexos de intelectualismo. Por isso, no confronto com a cidade só para alguns, ainda bem que ganhou a cidade para todos", refere Hélder Pacheco, historiador do Porto.

Algo nunca visto anunciava-se, porém, no horizonte. [...]»

[este magnífico texto do jornalista Miguel Carvalho, continua AQUI.

4 Comments:

Zaclis Veiga said...

tão lindamente escrito esse retrato do meu Porto..

beijo-te cheia de saudade

Anónimo said...

como "mouro" tenho descoberto o Porto pelos olhos singulares de amigos... é cidade vibrante de carácter... uma paixão a crescer..... filipe

Marta said...

é so a mais bela cidade do mundo, Filipe :) :) :) :)

Marta said...

nosso, querida Zaclis, nosso.
muitíssimo nosso.