domingo, agosto 29

Teoria da comunicação


Aceito o conceito de verosimilhança, a sua origem,
Numa relação do homem com a vida,
E na crença que é necessária,
A todos nós, para estabelecermos um contacto com
Os outros através da memória.
No entanto, nem tudo
Transporta essa verdade;
E para que possamos sentir
Uma experiência alheia, com tudo aquilo
Que o tempo levou, para sempre, no seu curso
Irreversível, teremos de viver cada sentimento como se nos
Pertencesse. Mas também sei que tudo está nas palavras; e que
Elas terão de ser escolhidas, uma a uma
Na mais exacta proporção do humano. Só assim,
Em perfeita concordância com as regras da poesia,poderei descrever,
Cada um dos pormenores do teu rosto, quando a luz
O ilumina, saindo de entre os cabelos que o envolvem,
Como sublime aparição. De facto, todos os adjectivos me parecem pobres para descrever o que és; e nenhum verso poderá
Traduzir a música da tua voz, ou a sua branda ternura
Nos meus ouvidos, nem o riso inesperado que me distrai
Do teu corpo. No fundo, isto podia levar-me a por em causa
O verosímil, e a distinguir entre a realidade vivida,
no instante mais alto do ser, e a imagem que guardamos
quando, em frente do papel nos dispomos a cantá-la.
Talvez
Isto me aproxime dos clássicos,
E da ideia platónica
Da oposição entre o divino e a sombra. No entanto, para
Quem teve nos braços a mulher que, para ele, foi deusa,
Ninfa, a mais bela das amadas, pouco importa a filosofia,
E muito menos a serenidade dos conceitos. O poema terá
De obedecer às imposições do amor;
E um desequilíbrio
De estrofes,
Uma vertigem de rimas,
Uma desordem de
Metáforas,
Fará viver para sempre o que só existe no tempo
De um sentimento que nos pertence,
A mim e a ti, mas
Que estas palavras levarão a todo lado,
Para que não cesse.

Nuno Júdice in O Estado dos Campos, D. Quixote, pag. 153/154
imagem: Isabel Lhano

5 Comments:

comboio turbulento said...

foi bom reler estas palavras. a imagem está muito bem conseguida e ilustra bem o texto.

Bípede Falante said...

Marta, enchi os olhos de água.

Marta said...

é lindo, comboio. tudo.


isso, querida Bípede, é porque falamos a mesma linguagem.

Anónimo said...

Faz cuidado Judice :)
SM

Marta said...

ah, SM, já o li novamente.
e com outros olhos :)