sábado, agosto 14

Porque é que os portugueses são tristes?

Porque estão perto da verdade. Quem tiver lido alguns livros, deixados por pessoas inteligentes desde o princípio da escrita, sabe que a vida é sempre triste. O homem vive muito sujeito. Está sujeito ao seu tempo, à sua condição e ao seu meio de uma maneira tal que quase nada fica para ele poder fazer como quer. Para se afirmar, como agora se diz, tão mal.Sobre nós mandam tanto a saúde e o dinheiro que temos, o sítio onde nascemos, o sangue que herdámos, os hábitos que aprendemos, a raça, a idade que temos, o feitio, a disposição, a cara e o corpo com que nascemos, as verdades que achamos; mandam tanto em nós estas coisas que nos dão que ficamos com pouco mais do que a vontade. A vontade e um coração acordado e estúpido, que pede como se tudo pudéssemos. Um coração cego e estúpido, que não vê que não podemos quase nada.

Aí está a razão da nossa tristeza permanente. Cada homem tem o corpo de um homem e o coração de um deus. E na diferença entre aquilo que sentimos e aquilo que acontece, entre o que pede o coração e não pode a vida, que muito cedo encontramos o hábito da tristeza. Habituamo-nos a amar sem nos sentirmos amados e a esse sentimento, cortado por surpresas curtas, passamos a chamar amor. E com verdade. No mundo das ausências, onde a tristeza vem de sabermos muito bem o que nos falta, a nós e àqueles que nos rodeiam, a bondade, que nos torna vulneráveis aos sofrimentos daqueles que nos acompanham e nos faz sofrer duas vezes mais do que se estivéssemos sozinhos, é o preço que pagamos por não sermos amargos. É graças à bondade que estamos tristes acompanhados. Há uma última doçura em sermos tristes num mundo triste. Igual a nós.

Miguel Esteves Cardoso, in As Minhas Aventuras na República Portuguesa

4 Comments:

Voar sem Hasas said...

Marta,

que sensibilidade e quanta verdade........

não venho aqui com a frequência que deveria e gostaria, mas que a preguiça, a "tristeza" ou "falta de motivação" me impedem ...

mas, ainda ontem falava com o João Menéres num texto que tinha aqui lido e o quanto gostei ( apesar de não ter comentado) e fomos unânimes na admiração pela Marta

um Beijo grande

Sonhos & melodias said...

Marta, que linda, comovente e verdadeira postagem. Estive há alguns anos ai em Portugal e pude sentir, não digo tristeza, mas uma certa melancolia. Mas isso faz parte do homem moderno. Parabéns pelo blog, está sempre lindo e com conteúdo.
Bjs

Claudia Sousa Dias said...

subscrevo.

beijos, minha querida.


csd

Marta said...

Voar sem Asas,

obrigada. tanto. e ao querido João também :)

abraço imenso para ambos

Obrigada, Sonhos :)

Beijo, querida Claudia.