terça-feira, agosto 17

Lóri e Ulisses


[...]

- E quem era de primeiro plano na tua vida?

- Ninguém.

- Apaixonaram-se por você?

- Sim.

- É o que eu imaginava. Eu, por motivos ignorados, desde rapazola tinha um dom: o de acordar alguma coisa nas mulheres. Com você, esse dom de atrair os homens não lhe causa nenhuma impressão?

Ela apertou deliberadamente os lábios como indicando que não ia falar.

- Não precisa responder, sorriu ele. Assim como o seu dom de atração age em mim...Você sabe, disse com simplicidade, que nós dois somos atraentes como homem e mulher.

Lóri, já esquentada pelo uísque, sorriu a tanta franqueza.

- Você sorriu! Você sabe o que lhe aconteceu? Você sorriu sem pudor! Ah Lóri, quando você aprender vai ver o tempo que perdeu. A tragédia de viver existe sim e nós a sentimos. Mas isso não impede que tenhamos uma profunda aproximação da alegria com essa mesma vida.

- Não posso! quase gritou Lóri, não posso, estou perdida. E se me aproximar do que você fala estarei perdida para sempre.

Ele não respondeu, como se ela não tivesse falado. Ficaram em silêncio até que ela própria sentiu que se recompusera.

- Não estou aqui porque lhe quero dar lições, se não fosse por outros motivos,porque também eu estou aprendendo, com dificuldade. Mas já existem demais os que estão cansados. Minha alegria é áspera e eficaz, e não se compraz em si mesma, é revolucionária. Todas as pessoas poderiam ter essa alegria mas estão ocupadas de mais em ser cordeiros de deuses.

Apesar de ser outono era um dos dias mais quentes do ano, Lóri suava a ponto das costas do vestido estarem molhadas, a testa se perlava de gotas de suor que terminavam escorrendo pelo rosto. Parecia estar lutando corpo a corpo com aquele homem, assim como lutava consigo mesma, e que era simbólico suar e ele não. Enxugou o rosto com o lenço, enquanto sentia que Ulisses a examinava e ela percebeu que ele estava tendo prazer em olhá-la. Ele disse:

- Você é de algum modo bonita. Gosto do teu rosto suado sem pintura embora também goste do modo exagerado como você se pinta. Mas é que pintada você prova não sei de que modo que não é virgem. Não, não se engane, não pense que eu desejaria que você fosse virgem, aliás de certo modo você é.Quantos homens você já teve mesmo?

- Cinco, respondeu sabendo perfeitamente que ele se lembrava.

- Você sabe, não é, que enquanto sou apenas seu amigo, tenho dormido com outras mulheres. Com uma fiquei meio ano.

- Imagino, respondeu sem ciúme.

Nunca tivera ciúme dos seus homens mas sabia da possibilidade violenta de ciúme de Ulisses, se ambos fossem amantes.

- Se você chegar a ser minha, do modo como quero, gostaria de ter um filho seu, assim mesmo, com você sem pintura no rosto e coberta de suor.

Ela se assustou um poucom com o inesperado, ele sorriu:

- Não tenha medo. Em primeiro lugar, do modo como eu queria que você fosse minha, só acontecerá quando você também quiser desse mesmo modo. E ainda demorará porque você ainda não descobriu o que precisa descobrir. E além do mais, se vier a ser minha desse modo, possivelmente quererá um filho nosso. Porque além de nós nos construirmos, provavelmente vamos querer construir um outro ser. Lóri, apesar da minha aparente segurança, também estou trabalhando para ficar pronto para você. Inclusive de hoje em diante, até você ser minha, não terei mais nenhuma mulher na minha cama.

- Não! exlamou ela.

- Isso não lhe dá nenhuma responsabilidade, boba, riu ele. . Isto é problema exclusivamente meu. E certamente você tem também uma ideia errada dos homens: eles podem ser castos, sim, Lóri, quando querem.

O olhar dela tornara-se sonhador, abstracto, um pouco vazio. Ela pensava: se Ulisses estava pretendendo que ela tomasse consciência de alguma coisa para tornar-se uma espécie de iniciada na vida, teria que ser devagar, se fosse de súbito alguma coisa nela podia ser fulminada. Mas ela sabia que Ulisses também sabia disso, e já lhe conhecia a paciência. Quem esta perdendo a paciência e começando a sentir uma pressa de avidez era ela mesma.

- Você quer ir ao Posto 6? perguntou Lóri, às vezes a essa hora os pescadores estão colhendo peixes.

Ele perscutou-a um longo instante que ela não entendeu, e de repente com um suspiro e com um sorrisos disse:

- Não, estou certo de que você não sabe. É uma pena que seu apelido seja Lóri, porque seu nome Loreley é mais bonito. Sabe quem era Loreley?

- Era alguém?

Loreley é o nome de um personagem lendário do folclore alemão, cantado num belísimo poema por Heine. A lenda diz que Loreley seduzia os pescadores com os seus cânticos e eles terminavam morrendo no fundo do mar, já não me lembro mais de detalhes. Não, não me olhe com esses olhos culpados. Em primeiro lugar, quem seduz você sou eu. Sei, sei que você se enfeita para mim, mas isso já é porque eu seduzo você. E não sou um pescador, sou um homem que um dia você vai perceber que ele sabe menos do que parece, apesar de ter vivido muito e estudado muito. Agora que você está de novo com os olhos normais, podemos ir ver os pescadores, se bem que eu tivesse planejado nesse calor jantar com você na Floresta da Tijuca. Mas as duas coisas seriam de mais para a tua capacidade. Lóri, você esta se acordando pela curiosidade, aquela que empurra pelos caminhos da vida real. Mas não tenha medo da desarticulação que virá. Essa desarticulação é necessária para que se veja aquilo que, se fosse articulado e harmonioso, não seria visto, seria tomado como óbvio. Na desarticulação haverá um choque entre você e a realidade, é preferível estar preparada para isso, Lóri, a verdade é que estou contando a você parte do meu caminho já percorrido. Nos piores momentos, lembre-se: quem é capaz de sofrer intensamente, também pode ser capaz de intensa alegria.

Se você quer ver os peixes, Loreley, vamos.

[...]


Clarice Lispector in Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, Relógio D´Agua, 1999

3 Comments:

Carlos Eduardo Leal said...

Ah, Marta,
Clarice, sempre. Ainda há pouco fiz uma oficina literária com o José Castello (jornalista, escritor e crítico literario) uma leitura comentada deste livro. Mto bom. Carinho,
Carlos Eduardo

Marta said...

eu adoro este livro, Carlos. e - ah - como adoraria ter participado nessa oficina.
abraço :)

C. said...

A sabedoria desta Clarice... Um dos melhores livros que já li.

Beijinho