quinta-feira, agosto 5

Quando eu não te tinha


Quando eu não te tinha
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo.
Agora amo a Natureza
...Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima...
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor —
Tu não me tiraste a Natureza...
Tu mudaste a Natureza...
Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim,
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as cousas.

Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou.
Só me arrependo de outrora te não ter amado.

Alberto Caeiro in O Pastor Amoroso

4 Comments:

João Menéres said...

MARTA

DUAS ESCOLHAS PERFEITAS !

Quanto não me sabem neste escaldante dia de praia!
A Natureza que devia estar em sossego é "afogada" por milhares de turistas distraídos...

Um beijo.

Bípede Falante said...

Quando eu não tinha algumas coisas era tudo aparentemente mais fácil, mas depois que as tive não posso perdê-las.

Leca said...

Sou...
sim...
um amontoado...
de coisas que construi...
não me vejo sem elas...e quero mais...
amigos...emoções...
principalmente...
beijos
Leca

Carlos Eduardo Leal said...

Ah, Marta,
Que lindo! Bela lembrança. Com carinho do teu leitor,
Carlos Eduardo