quarta-feira, agosto 25

salas de espera


nunca sei como me acomodar no banco da sala de espera do hospital. não é que me aconteça muitas vezes, felizmente. mas é engraçado que a acomodação depende sempre do que tenho dentro de mim, dentro da carteira, dentro do ipod. nunca da ergonomia do banco.

o Braga ganhou e o resultado foi como o acidente, inesperado. percebo muito mais de acidentes do que de futebol, obviamente. e percebi de imediato de quem era a culpa. ia atrás, na minha condução defensiva, como se a estrada fosse um ringue.

o que mais me aflige são as ambulâncias. agora, menos. depois de se andar numa, percebemos que é o meio de transporte preferido dos anjos e sossegamos mais.

dentro de mim? imagino o resultado se fizesse a TAC que estás a fazer. por entre as costelas, um coração passado a ferro, sem vincos nem rugas. muito liso e verde como um prado.

o médico disse que talvez um colete para a cervical. mas fora de perigo. era o que queria ouvir. entretanto, já tinha fumado um cigarro. dois. de um lado para o outro, como convém. talvez tenha voltado a fumar. não sei.

dentro da carteira? Promessa, de Virgílio Ferreira. espólio. restos de um autor que me comove sempre. e me faz sorrir e compreender mais. mais, não. melhor. sempre.

sempre é uma palavra perigosa. mas é uma palavra de Virgílio Ferreira e, só por isso, gosto muito dela. ou melhor: para sempre. para sempre é que é.

do banco do hospital, enquanto espero pela Cris, posso ver o teu sorriso. ver não. imaginá-lo. e perder-me na leitura e voltar atrás, sem que o teu sorriso me entre no coração verde e liso como uma folha de papel. se soubesses fazer origami podias fazer-me um pássaro com ele.

talvez, assim, o pudesse reaver como era dantes. digo eu, enquanto espero. digo não, penso.

as salas de espera também podiam chamar-se salas de pensar. as salas de espera das urgências, podiam chamar-se pense rápido. lá estou eu a disparatar. ainda bem que me interromperam para dizer que mais meia hora e podias ir para casa.

também já são horas. a noite vai longa e a lua um espanto. Paulinho Moska vai para aí na sétima volta de muitas músicas. Não deveria se chamar amor, está um pouco mais gasta.

5 Comments:

Poetic GIRL said...

Momentos que nos ficam cravados na alma... espero que esteja tudo bem, bjs

Lisarda said...

"é engraçado que a acomodação depende sempre do que tenho dentro de mim, dentro da carteira, dentro do ipod. nunca da ergonomia do banco."

Belo louvir da leitura nessos momentos de espera mas também de epifanías.

Um abrazo, Marta,neste momento que vives.

Anónimo said...

o que a Marta escreveu hoje, valeu para mim como um bom livro.Devo muito aos livros, e a Marta é mais uma credora que eu encontro com gosto. Para quando um seu livro(se ainda não escreveu um) ? Marta. escrever um livro, não é pelo prazer que nos leiam e elogiam.`É por vê-lo nascer todos os dias enquanto o escrevemos. Eu já escrevi um, não valerá nada como obra literária, mas deu-me um gozo imenso. Um abraço, espero que continue a oferecer-me mensagens tão boas, como a de hoje. Alberto Quadros

Anónimo said...

"e perder-me na leitura e voltar atrás, sem que o teu sorriso me entre no coração verde e liso como uma folha de papel. se soubesses fazer origami podias fazer-me um pássaro com ele.
talvez, assim, o pudesse reaver como era dantes."

Tão lindo, Marta. Só tu para dizeres coisas destas, num texto de hospital, assim como se não fosse nada.
De tudo o que aqui se passa sou fã destas coisas tuas que partilhas connosco.

K said...

Belissimo! Como é que o que nos espera numa sala de espera qualquer pode carregar tanta poesia?!

Concordo com Alberto Quadros1 Para quando um livro?

Beijo