sexta-feira, maio 7

Laura e Julio



[...]


Não trabalhava fora de casa, pois revelou-se escritor. Ou era assim, pelo menos, que ele se apresentava, como um escritor de grande talaento, embora sem obra.


- Como é que sabes que tens talento, se nunca deste a ti próprio uma oportunidade de o demonstrar? - perguntou-lhe Julio certa vez.


- Isso sabe-se - respondeu com uma ponta de cinismo. - Foi o meu olfacto de escritor, por exemplo, que me impeliu a tornar-me vosso amigo.


- Como assim?


- Vocês não se apercebem, mas são umas personagens muito romanescas, tanto observados em conjunto, como cada um por si. Podia escrever um romance sobre os dois, mas é melhor vivê-los que escrevê-los.


- O que é que eu tenho de personagem de romance?


- perguntou Laura, apanhada de surpresa pelas palavras de Manuel.


- A ambiguidade.


- O que é que isso quer dizer?


- Que podes ser compreendida de muitas maneiras, todas elas plausíveis. És um texto cifrado.


- E eu? O que é que eu tenho de personagem de romance? - perguntou-lhe Julio, mais para romper a bolha de onde, de repente, se tinham instalado Manuel e a mulher.


- O facto de estares louco.


- Como, louco?


- Completamente. Se queres que te diga, eu imagino-te como uma personagem que, um dia, durante a juventude, percebeu que estava louca e que, desde então, passa a vida a tentar ocultar esse facto. E, embora ninguém se tenha apercebido disso, nem a tua família, nem a tua mulher, nem os teus amigos,ambos sabemos que és louco: tu, porque sofres; e eu, porque sou escritor.


- Um escritor sem obra - acrescentou Julio, a rir, para esconder a perturbação provocada pelas palavras do vizinho.


- Relativamente. A descrição que acabo de fazer de ti é uma peça magistral.


Riram-se os três, embora uns mais do que outros. Enquanto ria, Julio sofreu uma experiência de desdobramento que lhe recordou o seguinte episódio de infância: ele e a mãe dirigiam-se para a escola de mãos dadas, enquanto se cruzaram com um menino cego que também seguia de mãos dadas à sua. Julio observou o menino com curiosidade, mesmo até com impertinência,e, nesse instante,como se no interior do seu crânio tivesse estalado a luz procedente de uma explosão nuclear, a realidade encheu-se de uma aura branca tão intensa que os transeuntes se converteram em fantasmas e a rua num cenário. A experiência não deve ter durado mais do que dois ou três segundos, durante os quais Julio se viu a si próprio a partir do menino cego. Ao desaparecer a aura e regressar à ordem anterior, o cego estava a comtemplar Julio das suas órbitas apagadas, e este pediu à mãe que mudassem de passeio. Agora, acabava de se desdobar na pessoa de Manuel. Durante umas décimas de segundo, durante as quais se manifestou de novo a aura que congelou momentaneamente os risos, Julio soube - porque não se tratava de um sentimento, mas de uma informação - que tinha estado por uns instantes dentro do corpo de Manuel, sem terabandonado, no entanto, o seu.


- E de que é que vivem os escritores sem obra? - perguntou ainda, para disfarçar a experiência que tinha acabado de sofrer e também para pôr em evidência a inutilidade de Manuel.


- Não sejas grosseiro - limitou-se a responder o escritor. - Ambos sabemos que ganhar a vida é vulgar.


Juan José Millás in Laura e Julio, pag. 13 e 14, Quetzal, 2007


imagem: Clarence Hudson

5 Comments:

Zaclis Veiga said...

Gostei tanto.
Pode me emprestar em julho?
;)

heretico said...

excelente texto! que prova "haver vida em Marte".

gostei deveras!

beijos

Leca said...

Vim até aqui...
para te trazer gentilezas...
e beijos gentis...
Leca

Bípede Falante said...

Genial!

MafaldaBranco said...

Tenho este livro já há quase um ano, comprei-o depois de ter lido "O Mundo", que adorei. A verdade é que neste ainda não lhe peguei, mas fiquei com mais vontade depois deste post! :) Obrigada!!