quarta-feira, outubro 13

Relações pessoais

Nunca tinha acreditado na companhia que os cães proporcionavam, nem na sua fidelidade. Mas estava sozinho há dois anos e fracassara em todas as suas tentativas para encontrar alguém, não já com quem viver,mas com quem se encontrar aos sábados ou aos domingos para não se esquecer da própria língua. Quando a sua mulher, pouco tempo depois de se irem embora, saiu também de casa, ele afundou-se na tristeza, mas depois pensou que a vida lhe oferecia outra oportunidade. Afinal de contas, não era assim tão velho, de modo que fantasiou com a ideia de ter novas relações, talvez de voltar a formar casal, de ir ao cinema, de fazer amor (ele chamava-lhe assim, «fazer amor») e de ver televisão com alguém ao lado.Mas a realidade tinha demonstrado que no âmbito das relações sociais ele era um incompetente. Com as coisas assim, cada dia estaria mais sozinho, falaria menos, sairia menos, sorriria menos. Envelheceria sozinho, adoeceria sozinho no sofá, talvez com a televisão ligada, como uma mulher do bairro cujo caso saíra nos jornais.

Então começo a pensar na hipótese do cão. Talvez fosse mais fácil a comunicação com um animal do que com um ser humano. Andava há vários meses a observar uma mulher que ao entardecer passava por baixo da sua janela conversando com um mastim que parecia entendê-la, pois de vez em quando levantava a cabeça e ladrava como em sinal de assentimento. Ao princípio observara-a com pena, como se se tratasse de uma pobre louca, mas à medida que as semanas passavam foi-lhe parecendo mais verosímil a possibilidade de que entre ela e o animal houvesse algum tipo de comunicação. Um dia saiu à rua quando a mulher passava por baixo da sua janela e acariciou a cabeça do cão ao mesmo tempo que dizia qualquer coisa agradável sobre ele. Depois comentou que andava a dar voltas à ideia de comprar um cão para lhe fazer companhia. Acrescentou que tinha um apartamento de tamanho médio e queria saber que raça mais lhe conviria. A mulher respondeu-lhe com desdém que os cães não se escolhiam.

- O senhor tem filhos?

- Dois - respondeu ele - , já crescidos.

-Por acaso escolheu-os?

- Na verdade, não.

- Pois com os cães é igual.

O homem balbuciou umas desculpas e continuou a caminhar.

Durante os dias seguintes percorreu algumas lojas de animais onde os cães lhe ladravam e moviam a cauda dentro das jaulas. Eram cachorros e transmitiam aquela energia especial com que, mais cedo ou mais tarde, a experiência acaba. Tê-los-ia levado todos e, por isso mesmo, era incapaz de se decidir por algum. Além disso, quando já estava quase a dar o passo, pensava nas vacinas, nas doenças, na obrigação de o levar à rua de manhã e à tarde, de lhe preparar a comida, de o assear (ele próprio passava dias inteiros sem se pentear)... Mas alguma coisa, no seu interior, lhe dizia que se tratava precisamente disso, de trabalhar para alguém em troca de um pouco de afecto. Passaram vários meses e, um dia, quando voltava das compras carregado de sacos, cruzou-se com um cão de raça e idade indefinidas, um vadio com pêlo curto e as patas compridas. Parou para o observar, pois parecia que estava sozinho, e, num dado momento, o cão virou a cabeça e dirigiu um olhar carregado de sentido ao homem, que continuou a andar preso de uma perturbação excitante. O animal seguiu-o. O homem sentia a sua presença atrás de si. «A seguir», disse para consigo, «dará meia volta e tomará outra direcção».

[...]

Juan José Millás, in Os objectos chamam-nos, pp. 189, 190, Planeta, 2010

imagem: Elliott Erwitt

terça-feira, junho 22

Os objectos chamam-nos


Ele ia todas as semanas a Barcelona por causa de assuntos da empresa e ela imaginava que ele ficava lá para sempre. Barcelona era na sua fantasia um espaço irreal de onde algumas pessoas não conseguiam voltar. O marido, no entanto, voltava e sem ter perdido uma pitada da sua autenticidade. Quase poderíamos dizer que regressava mais autêntico do que quando fora. As terças-feiras, enfim, eram dias felizes até que à noite ouvia deslizar a chave dele na fechadura.
Naquela terça-feira ela teve a premonição de que o avião sofreria um acidente em que pereceriam todos os passageiros.Teve-a antes de sair da cama, com um pé no sono e outro na vigília, e pensou que a ideia lhe sairia da cabeça no duche, ou enquanto estivesse a fazer o café. (...)
Quando ficou sozinha, ligou o rádio e esperou ansiosamente que dessem a notícia. Demoraram um pouco mais de uma hora, mas caíra um avião, com efeito, e era aquele em que seu marido viajava.(...) À hora do almoço ainda não recebera nenhuma chamada, mas não se preocupou por achar que a identificaçãodas vítimas seria muito laboriosa. O importante era que morrera. Venderia a casa, que ficava nos arredores, e iria viver para o centro, para estar perto dos cinemas, dos restaurantes, do bulício. O marido dela nunca gostara de Madrid, e por isso viviam na periferia. Ela detestava a periferia. O seguro de vida era muito alto e duplicava em caso de acidente. Não teria problemas em seguir em frente. (...)
A meio da tarde começou a inquietar-se, mas ligou o rádio e disseram que nem tinham começado as tarefas de identificação.(...)
Às oito e meia, ao ouvir um ruído proveniente da porta, foi até ao corredor e viu o marido entrar com toda a naturalidade. A primeira coisa que pensou foi que era uma aparição. Muitos mortos não se apercebiam que estavam mortos e continuavam a fazer as mesmas coisas que faziam quando estavam vivos. (...)
Deduziu que às terças-feiras não ia a Barcelona, mas sim que se encontrava com alguma amante nalgum sítio muito isolado, pois nem sequer soubera do acidente.
- Não soubeste que o teu avião teve um acidente e que estás morto, meu cabrão?
- O que estás a dizer, mulher?
- Que ainda não te identificaram. Não ouviste a rádio durante todo o dia?
Ele ficou corado de vergonha e durante uns instantes hesitou em fingir que era uma aparição.
- Pois para mim, a partir de agora, estás morto - disse ela, indo para a cama sem ver a televisão.
Desde esse dia ele começou a fazer-se morto e as suas relações, com alguma surpresa, melhoraram inefavelmente. Às terças feiras deixou de fingir que ia a Barcelona e passavam o dia todo juntos, na cama, como se fossem amantes clandestinos.Descobriram a necrofilia os dois ao mesmo tempo e há alguns meses conheceram o prazer de ter filhos póstumos. Agora, por fim, são uma família feliz, normal, das que conhecemos todos os dias e das que nos despedimos todas as noites.
Os caminhos do Senhor são inescrutáveis.


João José Millás in Os Objectos Chamam-nos
imagem: Julia Fullerton Batten
[esta é a segunda vez que transcrevo JJ Millás. uma escrita que merece vénia, na minha opinião. este ainda não li. depois de Julio e Laura ando a ler O Mundo. este excerto roubei-o ao Paulo. com vontade de começar a ler]

sexta-feira, maio 7

Laura e Julio



[...]


Não trabalhava fora de casa, pois revelou-se escritor. Ou era assim, pelo menos, que ele se apresentava, como um escritor de grande talaento, embora sem obra.


- Como é que sabes que tens talento, se nunca deste a ti próprio uma oportunidade de o demonstrar? - perguntou-lhe Julio certa vez.


- Isso sabe-se - respondeu com uma ponta de cinismo. - Foi o meu olfacto de escritor, por exemplo, que me impeliu a tornar-me vosso amigo.


- Como assim?


- Vocês não se apercebem, mas são umas personagens muito romanescas, tanto observados em conjunto, como cada um por si. Podia escrever um romance sobre os dois, mas é melhor vivê-los que escrevê-los.


- O que é que eu tenho de personagem de romance?


- perguntou Laura, apanhada de surpresa pelas palavras de Manuel.


- A ambiguidade.


- O que é que isso quer dizer?


- Que podes ser compreendida de muitas maneiras, todas elas plausíveis. És um texto cifrado.


- E eu? O que é que eu tenho de personagem de romance? - perguntou-lhe Julio, mais para romper a bolha de onde, de repente, se tinham instalado Manuel e a mulher.


- O facto de estares louco.


- Como, louco?


- Completamente. Se queres que te diga, eu imagino-te como uma personagem que, um dia, durante a juventude, percebeu que estava louca e que, desde então, passa a vida a tentar ocultar esse facto. E, embora ninguém se tenha apercebido disso, nem a tua família, nem a tua mulher, nem os teus amigos,ambos sabemos que és louco: tu, porque sofres; e eu, porque sou escritor.


- Um escritor sem obra - acrescentou Julio, a rir, para esconder a perturbação provocada pelas palavras do vizinho.


- Relativamente. A descrição que acabo de fazer de ti é uma peça magistral.


Riram-se os três, embora uns mais do que outros. Enquanto ria, Julio sofreu uma experiência de desdobramento que lhe recordou o seguinte episódio de infância: ele e a mãe dirigiam-se para a escola de mãos dadas, enquanto se cruzaram com um menino cego que também seguia de mãos dadas à sua. Julio observou o menino com curiosidade, mesmo até com impertinência,e, nesse instante,como se no interior do seu crânio tivesse estalado a luz procedente de uma explosão nuclear, a realidade encheu-se de uma aura branca tão intensa que os transeuntes se converteram em fantasmas e a rua num cenário. A experiência não deve ter durado mais do que dois ou três segundos, durante os quais Julio se viu a si próprio a partir do menino cego. Ao desaparecer a aura e regressar à ordem anterior, o cego estava a comtemplar Julio das suas órbitas apagadas, e este pediu à mãe que mudassem de passeio. Agora, acabava de se desdobar na pessoa de Manuel. Durante umas décimas de segundo, durante as quais se manifestou de novo a aura que congelou momentaneamente os risos, Julio soube - porque não se tratava de um sentimento, mas de uma informação - que tinha estado por uns instantes dentro do corpo de Manuel, sem terabandonado, no entanto, o seu.


- E de que é que vivem os escritores sem obra? - perguntou ainda, para disfarçar a experiência que tinha acabado de sofrer e também para pôr em evidência a inutilidade de Manuel.


- Não sejas grosseiro - limitou-se a responder o escritor. - Ambos sabemos que ganhar a vida é vulgar.


Juan José Millás in Laura e Julio, pag. 13 e 14, Quetzal, 2007


imagem: Clarence Hudson