sexta-feira, maio 14

Américo, eu te amo, Américo...


Américo, eu te amo, Américo. Você tem uma loja de tecidos, uma mulher que você vive querendo não enganar, um filho tão bonitinho, Américo, as mãos macias de medir tecido, de apalpar o meu pescoço com intenções de quem vai assassinar. Você é um colosso, Américo, tem tudo para me agradar. Sua inteligência sem escolas é tão ignorante que eu me arrepio dos seus mundos novos.Dentes afiados, uma saúde enxuta você tem, não vai me pedir um chá. Quando eu te peço um metro de voal, você retruca pra espichar conversa: "Leva também um metro de amorim". Você fala amorim, de sabido ou de bobo, Américo? Antigamente se um homem falasse errado, descartava na hora. Hoje, não. Quero vinho de todos os barris. Você é pai extremoso, exemplar marido caseiro. Tens um livro não tens? Uma colecção de marcas de cigarro e o retrato de sua mãe. Você fecha a loja aos domingos e feriados, incrível Américo, você não quer ficar rico, como te resistir? Sua mulher me pede açúcar emprestado, eu peço a ela é licença pra ver o álbum de retratos: você segurando seu filho, você pondo comida pra passarinho, brincando com o cachorro. Se você ficar quieto e parar de me espreitar desse modo invisível, eu pinto você, seus olhos bonitos de homem mais que os de uma mulher, bonitos. Você é meu amor delicado, por você faço doce de leite, corto em pequenos losangos, ponho minha blusa bordada e fico no banco da praça te esperando no seu caminho, quando "cai a tarde tristonha e serena, em macio e suave langor", pra te entregar o coração.
Você passa e eu digo: boa tarde, Américo.


Adélia Prado, in solte os cachorros, Livros Cotovia
Quadro: Fernando Botero


[roubado a uma das minhas paixões blogosféricas: o Marcas.
e, agora, Paulo, o que me apetecia mesmo era ir a correr comprar o livro.
obrigada]

4 Comments:

Leca said...

As telas de Botero são fantásticas...
e casou muito bem com o trecho do Américo...

Beijos gentis

Leca

Claudia Sousa Dias said...

ah, esse Américo...sonso....

csd

Paulo said...

Adélia Prado é uma das minha paixões literárias. Pelo que escreve, como escreve e pela sua singularidade: publicou o primeiro livro depois dos quarenta anos, por insistência de Carlos Drummond Andrade que lera alguns originais.
Nasceu e vive numa cidade que se chama Divinópolis o que parece prepositado. Conheci-a por influência de um grande amigo (do Porto...).
Faço votos para que encontre o livro, mas é uma edição antiga que encontrei por acaso numa feira.
Obrigado pela sua atenção.

Zaclis Veiga said...

Marta minha linda, conhece esse poema dela?

Tempo
A mim que desde a infância venho vindo
como se o meu destino
fosse o exato destino de uma estrela
apelam incríveis coisas:
pintar as unhas, descobrir a nuca,
piscar os olhos, beber.
Tomo o nome de Deus num vão.
Descobri que a seu tempo
vão me chorar e esquecer.
Vinte anos mais vinte é o que tenho,
mulher ocidental que se fosse homem
amaria chamar-se Eliud Jonathan.
Neste exato momento do dia vinte de julho
de mil novecentos e setenta e seis,
o céu é bruma, está frio, estou feia,
acabo de receber um beijo pelo correio.
Quarenta anos: não quero faca nem queijo. Quero a fome.