quarta-feira, maio 19

Como se filma?


«Façam luto à literatura!»
[lembras-te?]
E o nosso olhar voltou a sintonizar-se num espanto.
Foi no tempo em que fomos aprender a escrever guiões, como se não os tivéssemos todos cá dentro.
O problema é que estão cheios de literatura ou lá o que é.
Tu, com «aquele chão conhecia-lhe os passos», deste a deixa ao professor.
E como se filma? Como é que se filma um chão assim? [lembras-te?]
Ele a perguntar e a dizer que não se escrevem essas coisas. [para os filmes]
É de madeira? É de pedra, de terra?
Toda a gente sabe como é um chão que conhece os passos de alguém. Mas, pronto!
[ainda não tenho o fim. ainda não sei como vai acabar, não é bom, pois, não? desde que me
ensinaste o que aprendeste, tenho desvalorizado os princípios. estou concentrada no fim, mas ainda não o vejo. tem de ser o mais importante. o fim.]
Aprendemos tanta coisa, enquanto nos prendemos. Enquanto nos ligamos.
Ou estaríamos só a restabelecer filamentos ancestrais. Arquétipos de sonhos comuns?
«Frágil, viva, sempre em mudança, o guião é a crisálida». Ou serias tu?
Não me demorei a ver-te as asas. Mas, a tua aparência era assim: frágil, viva, em mudança. [como os guiões. como a vida.]
Queres vir? «Eu vou. Não sei se vá…Não sei se fique...»
Como se filma a hesitação de uma borboleta decidida?
[longe da literatura. foi o que anotei. porque luto, luto não fui capaz].
O signo, o fonema, o grafema. É cinema. [lembras-te?]
Técnica. Line-up. Out-line. Aprendemos muitas coisas. Planificações. Story-board.
Escrever cenas. Ordenar cenas. Inventar elipses. Alternar o dia e a noite.
[como se na vida real não fosse assim!]

Desejo + obstáculos = emoção.

Matemáticas de aparente equação fácil.
[talvez tenha começado a fazer estas contas muito cedo!]
Agora, vão para casa, leiam o jornal e inventem uma personagem. [queria dizer vida, mas disse jornal; lembras-te?]
A partir da notícia, inventem uma personagem e tragam-na já construída. [ele queria dizer vida. mas enganou-se, novamente e disse notícia. lembras-te?]
Única, com coerência, profundidade, acção. Narrativa. Transformação. Tensão.
Não se esqueçam que a personagem é mais do que aquilo que está ali, na história.
[se é! Se és. Muito mais do que nas nossas histórias. Agora ele acertou, o professor.]
E nós a aprender como se faz, como se filma.
E eu cada vez mais convicta de que os filmes são exactamente como na vida.
[menos quando precisas de um táxi com urgência, e esticas a mão...]
Nunca nada me parece de filme. Parece-me sempre tudo de vida!
E tenho motivos. Tantos motivos. A vida tem milagres. Milagres e assaltos.

Como se filma a minha vida sem esse dia de Janeiro?
Como se filma o nosso olhar a sintonizar-se num espanto?
Como se filmam as tuas asas a percorrer as nossas vidas?
Como se filma toda a ternura que pousas sobre nós?
Como se filma a minha vida sem os teus passos?
Diz-me.
Como se filma?

8 Comments:

Zaclis Veiga said...

Não se filma.
Há laços que são "infilmáveis", porque se fossem palpáveis desapareceriam ou seriam nada, como tantos os que existem e passam por nós.

Angélica said...

Vou te seguir pelo novo blog ok?
:)

Beijinhos...

Patti said...

Muito, muito bom!

Anónimo said...

Como se filma?
Todos os dias escrevo mais uma linha do guião.

Obrigada por este gesto.

Tenho saudades tuas. Nossas.

E.

heretico said...

tanta vida num morfema. ou num "blow up"...

tanta vida em Marta! crisálida que voa. alto...

deslumbrante texto...

(o que é cada vez mais raro)

beijo

Leca said...

Marta...
gostei muito da música "Os dias sem ti" da banda Sitiados...
será que você tem a letra da música...não entendo duas palavras...e quero entender...ela todinha...
beijossss
minha patrícia

C. said...

Este texto pede: feel me! (fil-me)
Toda a poesia é uma questão de fonéticos equilíbrios. E quanta poesia vim encontrar neste texto!

Adorei, Marta.

Marta said...

obrigada a todos :)


[querida E. eu também. muitas.


ainda ontem estive lá, na Praça Coronel Pacheco e disse qualquer coisa ao meu interlocutor. nada.
o que eu queria dizer era eu tenho muitas saudades nossas. minhas e da E.]