quinta-feira, outubro 6

A mulher descalça


[...já cá volto...a deixar-vos umas linhas desta história! fiquei feliz, agora...]


A mulher descalça acompanhou-o ao jornal. O trovão não aliviou o ar pesado, sobrecarregou-o. Respirava-se ameaça. Caminharam devagar, com passos diferentes sincronizados pela mesma dúvida:

De quem seriam as chaves que ela achou?, interrogava-se a mulher descalça.

Alguém teria encontrado as chaves?, interrogava-se ele.

Dispensavam a inutilidade das palavras.

Uma resposta esperava a mulher descalça na recepção do jornal. Ele correu a porta metálica do elevador e dirigiu-se à Redacção. Velhos conhecidos, dois?, três?, afastaram as máquinas de escrever e levantaram-se e vieram cumprimentá-lo. Vieram perguntar:

- Que é feito de ti?

- Ouvi dizer que viajaste?

- É verdade que foste para fora escrever um conto… ou é um romance?

Não respondeu. Não conhecia a pergunta e não conhecia a resposta. A intimidade redactorial aborrecia-o.

Publicou o anúncio das chaves perdidas. Pagou uma semana. Desceu no elevador. A mulher descalça esperava-o na recepção. Saíram para a rua e estendeu-lhe a resposta:

Obrigado pelo anúncio. Pela descrição, é muito possível que as chaves que encontrou sejam as minhas.

Terminava com uma direcção. Ele leu a resposta e releu a direcção. Várias vezes. A letra não lhe era estranha. Parecia disfarçada. Mal disfarçada. A direcção, nem por isso. Era aquela. A iluminação pública embaciava os transeuntes, poucos, que regressavam a casa. Dirigiram-se para a direcção, nos arredores da cidade.

Aquilo era uma cidade? Podia chamar-se cidade a um lugar?

Viram luzes acesas a meio de um prédio velho. Era o único iluminado, mas não era o único habitado. A mulher descalça pensou que podiam ter deixado a luz acesa e saído. Ele não soube o que pensar.

Um comboio apitou na estação e a praça acordou.

Tocaram à campainha. O trinco da porta abriu-se como quem espera há muito pelo momento. A escada ficava do lado esquerdo, em frente de um patamar com dois degraus. Quando passou junto das caixas de correio, ele levou a mão ao bolso deformado do casaco. A mulher descalça esperava por ele no patamar. Tinha uma mão no corrimão de madeira envernizada. E um pé no primeiro degrau de mármore. Sorria.

Subiram dois andares. Pararam em frente de uma porta. Via-se luz, por baixo. Olharam-se. Estavam ali porque responderam ao anúncio da mulher descalça. Ele tinha perdido as chaves.

Ela tocou à campainha.

Jorge Fallorca in a Mulher Descalça, pag. 43/44, 2011

9 Comments:

Carlos Azevedo said...

Há uns dias tentei comprá-lo na Gato Vadio, mas ainda não estava disponível para venda. Por sorte, deparei com uma pequena pérola.

Beijo.

fallorca said...

Era para lhe fazer uma surpresa, mas houve um feliz «impedimento», minha boa Amiga; o Chisco :)

Marta said...

...na Gato Vadio, em breve, teremos o autor - Jorge Fallorca - e os seus livros...alguns já lá estão!

beijo, Carlos
[e ...já viste mail?]

Marta said...

Surpresa, Jorge?

- mas está feita! mais um livro seu ["retido" por sinal] que me chegou às mãos!
foi um privilégio ter lido! lia-o de um trago...impossível parar! e, agora, novamente, com capas, o nº3!

terei a oportunidade de lhe ageadecer pessoalmente, meu amigo, em breve...
e a capa?
gosto tanto! gosto mesmo muito!
parabéns! muitos!

Carlos Azevedo said...

Sim, a apresentação estará a cargo do Miguel. :-)

Beijo.

[obrigado pelo excerto; gostei muito]

Carlos Azevedo said...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carlos Azevedo said...

[acho que alguém lá terá que mo emprestar enquanto não é colocado à venda ;-) outro beijo]

fallorca said...

Carlos Azevedo,
tenho conhecimento de que os livros (A mulher descalça e A cicatriz do ar) já estão disponíveis na Gato Vadio
Onde espero encontrá-lo/conhecê-lo, dentro em breve
Abraço

Carlos Azevedo said...

Obrigado, Fallorca -- passarei por lá. Será um prazer estar presente na apresentação.
Abraço
Carlos