domingo, outubro 16

escrevo-te a sentir tudo isto


escrevo-te a sentir tudo isto

e num instante de maior lucidez poderia ser o rio

as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos nos sais de prata da fotografia

poderia erguer-me como o castanheiro dos contos sussurrados junto

ao fogo

e deambular trémulo com as aves

ou acompanhar a sulfúrica borboleta revelando-se na saliva do lábios

poderia imitar aquele pastor

ou confundir-me com o sonho de cidade que a pouco e pouco morde a

sua imobilidade

habito neste país de água por engano

são-me necessárias imagens radiografias de ossos

rostos desfocados

mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos

repara

nada mais possuo

a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de romã

repara

como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar



Al Berto in O Medo, pag.275, Assírio & Alvim, 2005

1 Comment:

josé luís said...

issíssimo
;)