sábado, outubro 22

Uma carta


Meu Outono muito querido,


Setembro ainda ia no início quando disse cá para os meus botões que, este ano, te dispensava de bom agrado. Bem sei que sim, que me ocorreu por diversas vezes, mas estava a brincar! Coisas que nos passam pela cabeça, quando outras repassam pelo coração. Repentes!
De qualquer forma, não é rejeição suficiente para tanto amuo.
Repara: daqui a pouco chega o Inverno e os varredores de rua, de manga curta, amontoam folhas e folhas sob um sol esmagador!
Não sei se andas amuado porque te tiraram o ó maiúsculo ou se pura e simplesmente também andas farto do meu país, como eu, e foste embora deixando por aqui um Verão à toa, sem eira nem beira, completamente descapitalizado.
Está um calor desonesto! Um calor político! Um calor que não te pertence! Nem a nós. Nem aos frutos da época, que não chegam. Ou, se chegam, não apetecem e se apetecem, não há cenário. Pelo menos o que acorda a memória. Há muros de xisto, sem abóboras, a um sol demasiado; há castanhas adormecidas nos ouriços...enfim, há mães que não fazem compotas porque está muito calor e nem pensar, acrescentar-lhe o do fogão.
Tens noção dos rituais que ficam por cumprir, só porque não chegas como habitualmente?
As praias sem vigilância, apinhadas de gente, já não são trilhos solitários para descalçar os pés e vestir uma camisola de lã. A praia de Outubro – vamos ver Novembro – tem o mar mais onírico que conheço.
O que mais me faz sonhar, dentro da tal camisola...
Só os roupeiros e as montras das lojas estão cheios de conforto outonal que até faz impressão e a senhora da lavandaria anda triste, triste farta de dar a ferro roupa de Verão! É verdade! Não fui eu que inventei, foi ela que me disse. Mas no fim da conversa, sorri porque tem emprego. Mesmo triste, triste, tem emprego.
Podes não te dar conta da falta que fazes, na tua versão original, mas fazes. Até ao meu edredom! Numa altura em que pedem horas extraordinárias de trabalho, leve e lavado, sente-se um perfeito inútil, arrumado na parte de cima do armário. Sem ponta de luz, espera. Como todos nós, afinal. Só que nós, ao contrario dele, temos de bulir.
Depois, há as cores. Não sei se sabes mas acho-te um bálsamo para a alma e o olhar. Há quem se deprima, porque no sentido figurado, significas decadência. Eu não. Porque vejo sempre um certo encantamento na tua mutação matizada. Uma certa ternura na tua temperatura de meia-estação. [Ora aí está um termo que, agora, não te assenta nada bem: meia-estação]
Tens noção do argumento “faz-lhe lindamente a meia-estação”?
Gosto – gosto tanto – desse teu convite dissimulado para acrescentarmos, para irmos acrescentando ao corpo mais e mais. Até à derradeira camisola de gola alta.
Até ao par de botas, forradas, a pedirem um bom par de meias.
Gosto. Como gosto do convite inverso, mas igualmente dissimulado, que a Primavera nos faz. Um convite a tirar. A irmos tirando sempre, até ao último vestido de alcinhas.
Até pôr a descoberto, tudo o que há para descobrir no pico do Verão.
Isto para te dizer que não há condições psicológicas para passar do biquíni ao sobretudo!
Eu quero as meias-estações de volta, se faz favor! Vai avisando a Primavera!
E há, ainda, as músicas, algumas músicas que soam diferentes quando o sol coado pelas cortinas faz desenhos suaves no soalho da sala. Há aquele casaco de malha polar que ainda não consegui vestir no final do dia, enquanto beberico um chá de outono.
Há livros que ainda não revisitei, como revisito todos os anos por esta altura, porque não estás. Há passeios a pé que não fiz, há pinhas por apanhar, porque nem sequer me lembro que tenho – terei? - uma lareira para acender.
Até da chuva tenho saudades! E agora dizem que chegará de repente e excessiva , sob um alerta amarelo! Não brinques, Outono! Em alerta vermelho já está o meu país desnorteado. Já nada é previsível ! Nem as compotas da minha mãe! Nem o subsídio de Natal! Enfim...
E, só mais uma coisa, um pormenor, é certo, mas que me deixa um tanto irritada:  não dá jeito nenhum chutar folhas com sandálias! Palavra que não!

12 Comments:

Sininho said...

Tão bonito, Marta! :)

Acabou mesmo agora de chegar, sem pré aviso e excessiva. Também já tinha saudades.

Patti said...

Lindamente descrita, a minha estação. Adorei, principalmente, os detalhes que lhe colocaste e que não são dela.

sem-se-ver said...

que bom, tb gosta da minha estação preferida :)

Anónimo said...

Vai à varanda ver que tua carta chegou ao Outono :)

E a música é tão bonita...

bjo

P:

Anónimo said...

Imagino que esteja feliz! A chuva chegou e eu creio que foi mais efeito da sua carta do que das previções meteorológicas :)

FCB

Marta said...

Sininho, obrigada :) bjo

Marta said...

Patti, os detalhes são o mais importante! :) obrigada.

Marta said...

outro sorriso SSV!

Marta said...

Paulinha, beijo imenso!
Pena não estar em casa a fazer scones para celebrar devidamente :)

Marta said...

...se as minhas cartas tivessem algum efeito assim tão prático e rápido... dedicava uns dias a escrever umas poucas! :)))

Claudia Sousa Dias said...

acho que já foste atendida...



csd

deep said...

Parece que o outono não passou por cá. Neste momento, o inverno usurpou, sem aviso, o seu lugar.

Parabéns pelo texto. Está muito bonito. ;)