quarta-feira, outubro 5

e no detalhe



e no detalhe

habita um deus: partilho

essa convicção simples, dura como um seixo.

de todas as palavras, só uma irá bater

à porta do desconhecido,

entrar no coração, dar as boas-vindas.

e todas poderão ruir, e ela ficará latejando

no sangue das primeiras núpcias.



eu calculo a passagem do estorninho e da poupa, vejo

a exacta emoção da inexacta curva,

o rastro, facilmente luminoso.

a terra cresce para nós, tão rápida nos ramos,

só o vento a detém, um dia

seremos úteis e preciosos como a erva e a cabra,

e ricos de virtudes saberemos

o que fazer para morrer, não morrer, entretanto



ela lateja na núpcia do sangue, inteiramente ignorante

do grande sentido de tudo isto,

egoísta como a primeira mão

que nos tocou,

um destino leviano, sensível, pacato,

depois o sulco deixado reparte as colinas

e o pequeno piano repete

a criação do mundo.
 

António Franco Alexandre

imagem: marta v.

2 Comments:

josé luís said...

lindíssima melodia, a do pequeno piano.

(desaguarão um dia em mim esses
acordes de um rio no céu estrelado)

;)

Marta said...

ao outro "íssimo" tb o vou trazer para aqui ;)