terça-feira, setembro 6

Escrever, era a única coisa que povoava a minha vida...


«Escrever, era a única coisa que povoava a minha vida e que a encantava. Fi-lo. A escrita nunca mais me abandonou.


A solidão da escrita é uma solidão sem a qual o escrito não se produz, ou se esfarela, exangue de procurar o que escrever.

É sempre necessária uma separação das pessoas que rodeiam aquele que escreve livros. É uma solidão. É a solidão do autor, da escrita. Para iniciar a coisa, interrogamo-nos acerca desse silêncio à nossa volta. Praticamente a cada passo que se deu numa casa e a todas as horas do dia, sob todas as luzes, quer estejam do lado de fora, quer sejam lâmpadas acendidas durante o dia. Essa solidão real do corpo torna-se outra, inviolável, a da escrita. Eu não falava disso a ninguém. Nessa época da minha primeira solidão, tinha já descoberto que dedicar-me à escrita era o que eu tinha de fazer.

Não encontramos a solidão, fazemo-la. A solidão faz-se só. Eu fi-la. Porque decidi que era aqui que deveria estar só, que estaria só para escrever livros. Passou-se assim. Estive só nesta casa. Fechei-me aqui – também tive medo, evidentemente. E depois amei-a. Esta casa tornou-se a da escrita. Os meus livros saem desta casa. Desta luz também, do parque. Desta luz reflectida no tanque. Precisei de vinte anos para escrever isto que acabo de dizer. Creio que a pessoa que escreve está sem ideia de livro, que tem as mãos vazias, a cabeça vazia, e que não conhece, desta aventura do livro, senão a escrita seca e nua, sem futuro, sem eco, longínqua, com as suas regras de ouro elementares: a ortografia, o sentido.»

Marguerite Duras, escrever; trad. Vanda Anastácio, Difel, Outubro 2001;

Texto desviado daqui

4 Comments:

Carlos Medeiros said...

Gosto da sensação de solidão na hora da escrita, um momento de estar só com a gente mesmo.

paula said...

«Existem almas que nos fazem acreditar que a alma existe. Nem sempre são as mais geniais, as mais geniais foram aquelas que souberam exprimir-se melhor. São por vezes almas balbuciantes, muitas vezes são almas silenciosas.», escreveu ela, embora não fosse balbuciante nem silenciosa, faz-nos, sim, acreditar que a alma existe.

fallorca said...

Paula, exacto :)

Carlos Azevedo said...

Nem mais, Paula. Dela, o livro que mais me tocou foi "A Dor".