sexta-feira, setembro 2

Ergues o olhar: surpreendes por instantes essa hora



Ergues o olhar: surpreendes por instantes essa hora

em que o mundo envelhece: ténues as variações do branco

parecem dissolvê-lo numa longínqua música, anterior à chuva

Ou será então a imagem submersa de um filme a preto e branco

Há próximo um branco vibrante: o da cal ainda recente

mas que a humidade salina já a espaços mordeu,

recortando as feridas cinza na varanda a que vens.

Não há ninguém aqui. Quem te chame, digo.

Há o branco baço na parede que em frente em vão separa

rua e praia. Tendo já transposto essa fronteira incerta

ou erguendo-se para lá dela há o branco pobre da areia:

As dunas plenárias sustentam os corpos deitados de mar e céu.

Aí é agora o grande branco: o clarão velado e difuso

que guarda e distribui a memória embaciada do azul

e do verso, do oiro e da prata – uma lembrança vã.

Tu escreves no visível do mundo essa névoa branca e desolada

que o motor da paisagem produz. As folhas do ar são como

se fossem as levíssimas pétalas, as vagas sílabas de uma neve –

e essa névoa engolfa, atrasa e apaga na travessia os simulacros

das coisas supostas e imaginadas que o mundo te envia

enquanto esperas por alguém que não virá


Manuel Gusmão

1 Comment:

josé luís said...

não conhecia. grande texto.
obrigado :)