sábado, setembro 10

Eu estava farto de luz


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Eu estava farto de luz. Todos os países que percorrera, todos os cenários que contemplara, inundava-os a luz do dia, e, à noite, a das estrelas.
Ah! que impressão enervante me causava essa luz eterna, essa luz enfandonha, sempre a mesma,sempre tirando o mistério às coisas...Assim parti para uma terra ignorada, perdida em um mundo extrareal, onde as cidades e as florestas existem perpétuamente mergulhadas na mais densa treva...Não há palavras que traduzam a beleza que experimentei nessa região singular. Porque eu via as trevas. A sua inteligência não concebe isto, decerto nem a de ninguém...
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Narrar-lhe todas as minhas viagens seria impossível. No entanto quero-lhe falar ainda doutro país.
Que estranho país esse...Todo de uma cor que lhe não posso descrever porque não existe - duma cor que não era cor. E eis no que residia justamente a sua beleza suprema. A atmosfera deste mundo, não a constituía o ar nem nenhum outro gás - não era atmosfera, era música. Nesse país respirava-se música. Mas o que havia de mais bizarro era a humanidade que o povoava. Tinha alma e corpo como a gente da terra. Entanto o que era visível, o que era definido e real - era a alma. Os corpos eram invisíveis, desconhecidos e misteriosos, como invisíveis, misteriosos e desconhecidas são as nossas almas.

Mário de Sá-Carneiro, O Homem dos Sonhos in Livro de Verão, Alma Azul, 2003

imagem: capa sobre quadro de Edward Hopper

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