sábado, setembro 17

Poema do amor fóssil



Quem de nós falará aos homens que hão-de vir

quando o grande clarão encher de luz

e pasmo as nossas bocas?

E como?

Que língua entenderão eles?

Que símbolos, que sinais, que apagados murmúrios,

lhes falarão de nós,

desta fluida e versátil multidão,

destes seres que aparentam rosto humano

e como tal comovem,

mas que olhados do alto são lepra do planeta.

Que significará sofrer, amar, lutar,

quando as nossas misérias e tormentos

não forem mais do que pegadas fósseis?

Que palavras há-de o poeta reservar

para o coração de plástico dos homens que hão-de vir?

Que santo e senha entenderão

Que de nós restará neles?

Que parecenças terão com estes hominídeos

que amaram a Natureza porque lhes era hostil

e suportaram o próximo porque não eram livres?

Que verbo deverá ficar gravado na pedra que o vento não corroa,

que lhes fale dos humilhados e dos ofendidos,

dos sonhadores e dos impotentes,

dos ansiosos, dos bêbados e dos ladrões,

desta ridícula, miserável e corrupta humanidade

que instala os arraiais da morte alegremente

num campo que foi verde e que não volta a sê-lo?

Amor?

Como será amor em língua cibernética?
 
António Gedeão

2 Comments:

cs said...

lindo!

josé luís said...

*suspiro*
(saudades do professor rómulo)