domingo, novembro 22

Conservadores

Há dois tipos de conservadores no mundo: os que sempre foram, e vivem felizes na sua condição, tranquilos nos blazers espinhados, nos padrões Burberry e nas camisas de xadrez; e os que demoram anos a reconhecer o seu próprio conservadorismo e fazem-no sempre a contragosto, resistindo às evidências.
Pertenço, evidentemente, a estes últimos – razão pela qual persisto na ideia de conviver harmoniosamente com a modernidade, embora só me sinta feliz nos lugares e cenários que já conheço. Uma agenda Filofax. Um disco que já ouvi. Um autor que não me surpreende. Uma bebida que conheço há anos. O eterno Cozido à Portuguesa do Painel de Alcântara. O croquete do Gambrinus. Vergílio Ferreira. Sting. João Gilberto. O pastel de massa tenra do Frutalmeidas.
Gosto do que é novo – mas o confronto cansa-me Gosto de conhecer novas cidades – mas logo que posso volto a Londres e a Barcelona. Defendo o casamento entre pessoas do mesmo sexo – mas se me falam em adopção, vacilo.
Propositadamente misturo o que não se mistura – para que se perceba que há, no conservador não assumido, algo que está aquém e além da ideologia ou sequer da cultura familiar. Como se tivesse uma marca genética que não se consegue vencer por decreto. [...] continua aqui.

Pedro Rolo Duarte in Revista Nós, nº29, jornal "i"

5 Comments:

Anónimo said...

Há coisas em que também sou conservador só que nem sempre os conservadores são bem entendidos, são, normalmente confundidos com pessoas antiquadas e "bota de elástico" e não tem nada a ver.
Dava para um grande debate este tema.

Leigo

Anónimo said...

E mais, Marta, sou conservador em muitas coisas e nunca usei gravata.
Leigo

hg said...

Eu sou de conservar poucas coisas. Gosto da novidade, detesto ver um filme que já tenha visto, ler um livro que já tenha lido e fazer coisas só porque é um costume ou um hábito. O Natal e a Páscoa são épocas que me enervam profundamente. Só gosto porque tenho férias.
Deito fora muita coisa (revistas, principalmente); dou roupa e sapatos (pouco, porque também compro pouco) porque já não gosto, canso-me facilmente das coisas; distribuo pelas amigas colares e pulseiras que já não suporto ver na cómoda a ocupar espaço!
Se me falarem dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo, concordo, e se me falarem em inserir crianças desprotegidas em ambientes saudáveis, concordo também.
A única veia conservadora que eu tenho revela-se com a família, com os meus animais e com os livros e filmes (apesar de não os voltar a ler ou ver, a não ser por questões profissionais, ficam ali, lembrando momentos muito meus).
Não gosto dos móveis sempre no mesmo sítios...
Caixas! Gosto muito de as conservar. Ponho lá dentro tudo que já não quero ver e não tem qualquer funcionalidade no presente momento.
O confronto estimula e anima-me.

rps said...

"Há dois tipos de conservadores no mundo: os que sempre foram, e vivem felizes na sua condição, tranquilos nos blazers espinhados, nos padrões Burberry e nas camisas de xadrez; e os que demoram anos a reconhecer o seu próprio conservadorismo e fazem-no sempre a contragosto, resistindo às evidências"


que estupidez de tese!

Tiago Taron said...

Há neste texto uma certificação da impossibilidade de ser conservador quem quer, por muito que se esforce em dissimular esse querer. Todo o texto é uma espécie de manifestação do espírito atávico, vulgar e erradamente qualificado de provinviano.