terça-feira, fevereiro 21

...seus olhos pirilampiscavam.


[...] Aconteceu assim:

o gatinho gostava de passear-se nessa linha onde o dia faz fronteira com a noite.
Faz de conta o pôr do Sol fosse um muro.
Faz mais de conta ainda os pés felpudos pisassem o poente.
A mãe se afligia e pedia:
- Nunca atravesse a luz para o lado de lá.
Essa era a aflição dela, que o seu menino passasse além do pôr de algum Sol. O filho dizia que sim, acenava consentindo.
Mas fingia obediência.
Porque o Pintalgato chegava ao poente e espreitava o lado de lá.
Namoriscando o proibido, seus olhos pirilampiscavam.

Mia Couto in O Gato e o Escuro
imagem: Danuta Wojciechowska

2 Comments:

Funes, o memorioso said...

Cada vez mais me convenço que Mia Couto é o grande escritor vivo de língua portuguesa.

Marta said...

que saudades já tinha de o ver por aqui, insuportável Prof. Funes!